terça-feira, 9 de julho de 2013

Jack Kerouac - On The Road


Minha relação com a estrada sempre foi de paixão. Como todo menino, colecionava meus carrinhos de ferro. Ainda adolescente, partia em road trips de fim de semana com a prancha no teto do velho Passat, o carro cheio de amigos e daquela insensata alegria juvenil. Mais velho, troco as quatro rodas por duas e entro num motoclube. De moto, a estrada fica mais próxima, sente-se o asfalto correndo por baixo e o vento por cima. À frente, as linhas tracejadas hipnotizantes.
Tantas histórias foram contadas sobre a estrada que surgiu um novo gênero no cinema: o road movie. Pois bem, On The Road seria um road book? Era o que eu achava, mas há muito mais por trás das linhas do livro de Kerouac do que apenas as linhas tracejadas da estrada. A estrada de Kerouac é mais que a estrada do asfalto: é a estrada da vida. Nas entrelinhas da estrada de Kerouac vejo um debate profundo sobre a juventude, o conflito de gerações, o questionamento do que é ou não realmente importante, a adoração à música e às artes, a crítica ao vazio cultural, a abordagem de temas como sexualidade, solidariedade, amor, amizade, drogas, a relação entre pais e filhos, os traumas de infância, a busca pelo pai ausente, a felicidade real e a relação do ser humano com o dinheiro. Tudo isso não cabe entre as linhas de uma estrada, expande-se para além em todas as direções e acima, abaixo e para dentro de nós mesmos.
A profundidade do livro me impressionou. O tema da estrada é um disfarce para tudo isso e ao mesmo tempo uma metáfora brilhante. A estrada da vida é mesmo uma estrada, uma estrada vicinal e esburacada, com muitas curvas, desvios e retornos, e poucas retas. E a estrada só termina com a morte. “Ao infinito e além...”, ainda que em círculos! Esse é o movimento que se vê em “On The Road”.
O livro foi escrito em um parágrafo único com cerca de 125 mil palavras, num rolo de papel de 36 metros. A estrada de Kerouac estava não apenas no conteúdo, mas também na forma do próprio manuscrito. A propósito, Kerouac relutou em modificar a forma original do livro e apenas devido à enorme pressão do editor fez as modificações que tornariam o livro mais “digerível”.
Como nos mostrou a história da literatura, os escritores que ousaram na forma, e Kerouac não foi exceção, só tiveram suas obras reconhecidas e plenamente aceitas décadas depois. O estilo de grandes parágrafos e orações, sem quebras para diálogos, foi mais tarde copiado por autores como José Saramago (que foi além, suprimindo até mesmo as aspas).
On The Road não apenas agrada pelo conteúdo, mas também inova no formato, e tudo ali parece estar relacionado à idéia de velocidade, necessária à perfeita assimilação do que Kerouac queria dizer com a metáfora vida-estrada.
A história começa quando Jack e Neal se conhecem, logo após a morte do pai de Jack. Neal procura Jack, a princípio, numa tentativa de se tornar um escritor (como todo grande livro, On The Road é repleto de referências à literatura), mas Kerouac já induz a uma interpretação mais complexa dessa amizade: Jack diz a Neal: “Porra cara sei muito bem que você não me procurou porque tá a fim de virar escritor...” Neal passa a vida a procurar o pai ausente. A amizade dos dois apresenta esse elo de ligação importante, explorado ao longo de toda a narrativa. A ligação mental entre Jack e Neal é reforçada através de vários recursos do autor, como a repetição vista na frase final do livro (falo disso mais adiante). Jack é obcecado por Neal, e essa obsessão é recíproca. A história não é sobre Neal ou sobre Jack; é a história dos dois e da amizade entre eles, amizade essa que se manifesta sobre o asfalto, sobre quatro rodas.
Kerouac vê a estrada como um rumo à frente, uma direção inevitável e irretornável, onde tudo está à frente e nada resta atrás. Mas, se por um lado Kerouac aponta nossos narizes sempre para frente em passagens como no momento em que chega a Hollywood: “Nada atrás de mim, tudo à minha frente, como sempre acontece na estrada”; por outro, volta e meia insere obstáculo intransponíveis. O oceano é um deles e obriga ao fim e retorno do viajante. Kerouac planeja zarpar num navio, mas essa viagem nunca acontece. O bate-e-volta nas costas leste e oeste lembra uma versão motorizada de Forrest Gump. “Era o fim do continente, nada mais de terra.” A necessidade de retornar ou de desviar da rota é um elemento recorrente na história. A primeira viagem de Jack é planejada cuidadosamente sobre uma reta: a Rota 6, que nasce no Nordeste dos EUA e desce em diagonal até a Califórnia. Jack perde o mapa, o rumo e a esperança de uma execução conforme planejado logo no início da empreitada. Outra viagem, dessa vez ao México, começa dessa forma: “Ali estávamos nós a caminho das desconhecidas terras do sul e a apenas cinco quilômetros da nossa cidade natal, a velha e pobre cidade da nossa infância, quando um estranho e exótico inseto febril levantou-se de misteriosas corrupções para inocular o temor em nossos corações.” Jack refere-se a um inseto que pica o braço de Frank, um dos companheiros de viagem. Aqui mais um simbolismo que talvez represente a mensagem maior do livro: a vida é feita de ações e reações às circunstâncias e quase nunca seguimos pela trilha que marcamos previamente no mapa de nossas vidas. Ou nem sequer sabemos de antemão aonde queremos ir. Ao passarem por Chicago, Neal exclama, eufórico, “Uau! Jack temos que ir e não parar de ir até chegarmos lá.” Jack pergunta “Aonde vamos homem?”, e Neal responde “Não sei mas temos que ir.”
Outra recorrência é a casa de Jack (a casa de sua mãe, em Nova York), seu porto seguro. Em cada viagem, o carro utilizado era parcial ou totalmente destruído, e ao fim de cada viagem sempre se voltava ao ponto de origem sem se saber ao certo o que foi ganho ou por que se fez a viagem. As peças e parachoques que caiam pelo meio do caminho eram os pedaços do próprio Jack: “Onde é que estava a vida? Eu tinha minha casa para ir, meu lugar para descansar a cabeça e calcular as perdas que havia sofrido e calcular o ganho que sabia estar também em algum lugar.”
E Jack queria mesmo parar em algum lugar: “Quero me casar”, ele diz a Neal e Louanne, “e assim poderei descansar meu espírito ao lado de uma garota até que nós dois fiquemos velhos. As coisas não podem continuar assim indefinidamente... todo esse frenesi e essa agitação toda. Temos que chegar a algum lugar, encontrar alguma coisa.” Aliás, a vida familiar é enaltecida por Kerouac em outras passagens, como, por exemplo, quando diz que a paz desceria à terra quando os homens voltassem para casa e pedissem perdão às suas mulheres. Em outro momento, Kerouac eleva a família como objetivo maior da vida: “Toda minha vida arruinada girou diante de meus olhos fatigados, e percebi que não importa o que você faça está fadado a ser uma perda de tempo no fim das contas e você pode muito bem ficar doido. Tudo o que eu queria era afogar minha alma na alma de minha mulher e alcançá-la por meio do emaranhado de mantos que é a carne no leito.” A busca pelo amor aparece também no momento em que, parado numa estação rodoviária, Jack vê passar uma mexicana linda: “Uma dor apunhalou meu coração, como acontecia sempre que via uma garota que eu amava indo na direção oposta nesse nosso mundo grande demais.”
Ao falar de buscas, de amor e de amizade, Kerouac critica os valores da sociedade americana da década de 1940. Vemos Kerouac ironizar a intelectualidade. Também o vemos falar da facilidade da nova geração em fazer novas amizades, obviamente como contraponto à visão hermética e alterofóbica da geração anterior: Jack está “preparado para qualquer espécie de amizade humana” e, de fato, se relaciona com bêbados, prostitutas e vagabundos com a mesma naturalidade com que o faz com intelectuais e famílias “tradicionais”. O conflito entre vagabundos e “cidadãos normais” é colocado com humor. Big Slim Hubbard (segundo Kerouac, um “vagabundo por opção”) é introduzido na história dessa maneira: “quando criança [Big Slim Hubbard] tinha visto um vagabundo se aproximar e pedir um pedaço de torta à sua mãe, e ela lhe deu, e quando o vagabundo sumiu na estrada o garotinho perguntou, “Mãe quem era esse homem?” “Ora é um vagabundo.” “Mãe, quero ser vagabundo um dia.” “Cale a boca, isso não é coisa para os Hubbards.”
A vida segundo Kerouac é uma vida sem mapas, sem bússolas e sem navegadores GPS. É uma vida sem rumo. Não se sabe direito o que se busca, ou se busca o amor mas não se sabe onde ele está e qual a sua forma. E estamos todos conectados. Não somos indivíduos sozinhos no mundo, ainda que sejamos solitários. Estamos conectados à família, aos amigos, ao passado, ao pai ausente, aos bêbados desconhecidos com os quais esbarramos nas sarjetas. Neal representa essa conexão de Jack com o mundo, e esse é o elemento fundamental do livro, sua linha narrativa essencial. O livro começa falando de Neal Cassady: “Encontrei Neal pela primeira vez não muito depois que meu pai morreu...”. E termina no triste último encontro entre os dois amigos-irmãos, encontro no qual há o desencontro espiritual, o rompimento fatal que reinsere Jack em sua própria vida individual. Jack finalmente se liberta de Neal, mas seu pensamento não abandona jamais o amigo, cuja imagem deverá martelar em sua mente para sempre, ressonância simbolizada pela repetição da última frase do livro: “[...] eu penso em Neal Cassady, eu penso até no Velho Neal Cassady o pai que jamais encontramos, eu penso em Neal Cassady, eu penso em Neal Cassady.”
Tal como Jack e Neal, indo e voltando, batendo e rebatendo, esse livro é para ser lido e relido, e ele pulsará na mente do leitor para sempre. Desde que o li, eu penso em Neal Cassady, eu penso em Neal Cassady...

terça-feira, 30 de abril de 2013

Meu romance com os romances

Há quem goste de contos. Há quem goste de crônicas. Outros amam a poesia. Mas há quem prefira, como eu, romances.
Claro que me divertem as curruíras nanicas do Dalton Trevisan, os contículos pulguentos do Charles Bukowski e a cadeira de balanço do Carlos Drummond de Andrade. Também contos maiores, clássicos, do Anton Tchekhov, ou modernos, da Isabel Allende. Há contos enormes, mas que se leem numa só sentada, ou deitada. Que se lê o prefácio em Curitiba e o posfácio em Brasília, em que os personagens se conhecem em São Paulo e ao pousarem no Rio já foram felizes para sempre.
Como nos relacionamentos, há os rápidos e intensos, cujo prazer chega num pé e sai no outro, e há os lentos, duradouros, sólidos, que vão conquistando devagar, dia após dia, página após página. Assim é a relação com o romance, estrutura maior e mais complexa, recheada de contos, às vezes também crônicas, e muitas vezes poesia, ainda que em prosa.
É preciso ler grandes romances para entender do que estou falando. Grandes em qualidade e em tamanho. Aqueles bem grossos, assustadores aos coraçõezinhos desacostumados, os clássicos, aqueles que já passaram pelo crivo da História. Mas é como ir à academia depois das férias. Só dói no primeiro dia. 
Você precisa se envolver com os personagens, criar uma relação com eles, sentir saudade deles, sofrer junto, vibrar com suas conquistas, chorar suas dores, planejar suas vinganças, reprovar seus erros, reconhecer seus méritos, rezar para que se salvem. É preciso torcer pelo casal que quer ficar junto, pelo pai quer resgatar a filha, pelo detetive que persegue o autor do crime, pelo rei que defende seu reino, pela mãe que defende seu filho, pelo louco que se acha são. É preciso morrer as mortes dos personagens, e morrer de curiosidade pelo desfecho da história. Deve-se entrar nas páginas, molhar-se na tinta, respirar o ar que tomava o quarto do escritor, sentir sua pena riscando nossa pele. 
Tudo isso exige tempo. Exige que o livro durma ao nosso lado, em nossa mesinha de cabeceira, nos acompanhe na mochila ou na bolsa a todo lugar, nos faça companhia nas filas do banco e do supermercado, ande conosco no ônibus e no metrô, viaje conosco na ponte aérea ou no voo intercontinental, tome sol conosco na praia ou na piscina, vá conosco ao banco da praça ou do parque, ou simplesmente sente conosco no sofá da sala.
Na rapidinha do conto, na frieza da crônica e na beleza curta de um poema, viaja-se, mas é pegar um táxi, ou ir a pé ali na esquina. Ou é ir longe, mas num foguete à velocidade da luz. Não é melhor, nem pior. Mas é sexo rápido, na escada, no carro. Tira-se a roupa e já se sente o orgasmo. 
No amor leitor-romance, o sexo é tântrico, dura dias, semanas, meses ou anos. É namoro firme, relacionamento sério na rede social, anel dourado no anelar direito, e depois no esquerdo. Talvez o romance tenha esse nome porque nos conquista, nos enamoramos dele, e com ele casamos até que a morte nos separe...


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Filhos e poemas


Amor e dor são ingredientes presentes nas receitas de filhos e poemas. Para facilitar, vamos escrever uma só. Faça um deles, ou faça os dois ao mesmo tempo, a seu critério.

Comece pelo amor. Será preciso aqui um trabalho a quatro mãos, ou dois corações. Como toda receita complexa, comum em pratos sofisticados, sem um ajudante, ou melhor, um co-autor, ou melhor, um amante, sujam-se panelas e acessórios e termina-se pedindo uma pizza pelo telefone.
Junte os dois amores num recipiente. Pode ser um parque, uma praia, um avião, um banco de praça, seu trabalho ou mesmo um site de relacionamentos. O importante é que um mestre-cuca enxergue o outro e mais ninguém, independente do tamanho da cozinha e da população em volta. Essa receita, um não faz sozinho, e mais de dois entorna o caldo.
Em seguida jogue as sementes. Podem ser de girassol, de alecrim ou de dó-ré-si-bemol. No caldo do amor, aquecido em fogo brando ou alto, dependendo da pressa e da fome, as sementes germinarão. Um corpinho começará a crescer. Versos e estrofes tomarão forma. Um olhinho aqui, uma palavra acolá. Uma rima emparelhada, outra cruzada. Orelhinhas emparelhadas, perninhas cruzadas. Não dá ainda para ver o sexo.
Mexa sem parar, para não desandar. Se parar não dá liga, vai solar. Também não pare de temperar. Se parar, vai azedar, ou salgar. A massa cresce, o corpo cresce, o amor em forma de ser, ou de poema, intumesce e aparece. Já dá para ver o sexo. Pode ser menino ou menina. Podem ser gêmeos no ventre ou mesmo na poesia. Tanto num como noutro, vale menino com menina, menino com menino ou menina com menina.
O feto e o rascunho viram gente e poema. Corpo completo, cabeça, tronco e membros, dísticos, quartetos e sextilhas. Já não cabe mais na panela, e nem no ventre, e nem na mente. E vem a dor. Prepare-se, este é o passo fundamental, o toque de mestre, o tempero final.
As contrações nas entranhas, no alto e no baixo ventre. Algo dentro de nós cresceu demais e tem de sair. A dor do parto, a dor que expulsa o filho do útero materno, a dor que jorra pela ponta dos dedos no sangue que transcreve o poema em letras escarlate. A poesia que toma forma, a semente que vira gente. Já não cabe em mim e nem em ti. É preciso dá-la à luz, levá-la à mesa, com choro e riso, velas e um bom vinho.
E olhamos aquela coisinha inacreditável que saiu de nós. É a cara do pai! Não, é a cara mãe! Tem traços dos dois! Cada linha, cada pausa, cada rima, cada acento, cada erro, cada acerto. Nos vemos ali. É nosso amor que tomou forma, de criança, de prosa ou de verso.
Sirva enquanto quente, beije, abrace, cheire, leia, releia, aproveite. Depois o filho cresce, o poema envelhece. Os traços mudam, as traças traçam. A tinta desbota. Mas sempre serão nossos filhos, nossa obra-prima, tanto a criança, para sempre criança, como o poema, para sempre poesia.
Amor e dor aparecem nas receitas de filhos e poemas. O amor inspira, concebe e gera. O amor cresce dentro de nós até não caber mais. A dor expulsa e pare. É um parto natural. Depois amamos aquele ser, aquele poema que se escreveu. E ele é a cara do pai e da mãe, digo, do amor do qual nasceu.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Eternidade efêmera

Ele acordou outro dia e olhou para o teto, a página em branco na qual costumava escrever seus mais repentinos pensamentos matinais. Percebeu que não queria mais o resto, só o certo.
Conhecera-a e reconhecera-a singular, diferente, única, também farta de começos e fins, e que buscava, enfim, o transcendental, aquilo que não nascia do físico e dele não herdava seus castelos de areia..
Aquele homem percebia que já se havia satisfeito em tudo. Sua vontade dali em diante, atendendo a sua própria e sincera convicção volitiva, encerrava-se na vida ao lado daquela e de mais nenhuma. Sua libido não mais respondia aos estímulos fugazes de traseiros rebolativos, pernas expostas, olhares vulgares ou esta ou outra artimanha feminina.
Seu único sexo longe da amada era o solitário e em sua homenagem, na lembrança de sua imagem, do cheiro, do decote generoso, da maciez da pele da parte interna das coxas, das mãos leves e carinhosas, dos lábios entreabertos num convite, do olhar hipnotizante e da Yoni perfeita..
Ao encontrá-la, reafirmava seu sentimento pela presença. Ao despedir-se, convencia-se pela ausência. Assim, o prazer do encontro e a dor da distância eram sentimentos opostos que em soma e subtração resultavam no convencimento do amor que nascia para uma vida eterna.
O medo de que seu sentimento fosse filho único, sem gêmeo no ventre de sua amada, assim como dois vulcões dificilmente entram em erupção ao mesmo tempo, exigia-lhe provas de amor todo dia, até na madrugada exausta..
Certa vez, teve a certeza de ter-se enganado quanto ao amor, ou acertado quanto ao seu medo, ao encontrar no diário de sua diva, dirigidas a outrem, as palavras que tanto sonhava em ouvir. Cartas que ela escreveu, mas não me escreveu.
Razão e sentimento imediatamente em postos na batalha, como crianças empunhando espadas de madeira. Não se golpeavam mutuamente, mas sim a sua cabeça, afastando-lhe o sono e o sossego.
Como Otelo, ressonavam-lhe na mente intrigas e suspeitas, não de traições, decerto, mas de que sua musa não era muda por si, mas abstinha-se de falar apenas a ele. Ela tinha em seu intimo os sonhos que ele lhe cobrava, mas neles ele nunca aparecia.
Inobstante a convicção de que o amor só é explicável por aquilo que não é descritível, associava a esse amor, no afã de justificá-lo, infinitos atributos, do caráter aos lindos olhos, do talento aos lábios solícitos, entreabertos, do espírito ao corpo.
Mas quando o amor se rende à razão, melhor seria acordar dessa eternidade efêmera. Coração não pensa e cabeça não sabe amar. Se pensa, não ama, se ama, não pensa. Se ama, não esquece, se ama, não acorda. Não sei brincar de nunca mais descontar no corpo o tesão que se sente pela alma.

sábado, 30 de março de 2013

Caixas

Descobri que caixas são seres vivos, reproduzem-se, geram-se espontaneamente, nascem e enchem-se. Abro uma, vejo uma nova, fechada e cheia. Em cada uma, histórias, dores, alegrias, amores, risos, rancores, coisas mortas, coisas esquecidas, coisas perdidas, surpresas boas e más, pessoas boas e más, pessoas que já se foram desta para melhor, ou para pior, pedaços e cacos de uma vida inteira.
As mudanças dão trabalho, mas nos lembram que temos o que não lembrávamos, que temos o que não precisamos. Ao limpar as caixas de seus conteúdos, limpa-se a própria alma, relê-se a própria história, renasce-se... assim como fazem as caixas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Navegando contra o vento

Navegar contra o vento, ainda que com lenço e documento, é sempre mais difícil, vai-se lento, é cansativo varar as ondas de frente, ziguezagueia-se a bombordo e estibordo, camba-se para lá e para cá, vai-se mais para os lados que para frente e nunca se vencem grandes distâncias sem grande esforço. Foi assim que nunca aprendi a velejar.
Da mesma forma navegaram as ideias oposicionistas, subversivas, segundo alguns, ao longo da história. E não importa a cor do barco, ou das velas. Quando soprava o vento do liberalismo, ou capitalismo selvagem, para alguns, remavam de través os da esquerda. "Comunista!", gritavam para mim, ao volante do meu Passat repleto de adesivos de Lulalá. Estávamos em 1989. "Subversivo!", era meu adjetivo. Minhas velas eram vermelhas, com foice e martelo amarelos. Eu sonhava com um Brasil igualitário. Proletários no poder, eu pensava, seria a solução para todas as doenças tupiniquins. Não era de malária que eu falava, era de patrimonialismo, nepotismo, coronelismo, injustiça, desigualdade social. 
E o vento mudou, após tempestades incríveis, alucinantes. E após uma década, esse novo vento, contrário ao anterior, sopra forte. As velas da esquerda içadas, imponentes, firmes, infladas como balões. Mas minha viagem não se tornou mais fácil, pois as velas do meu barco não são mais vermelhas, e nem tampouco azuis e amarelas, são cinzas. Cinzas de dúvida. Talvez levado pelo desafio de sempre remar contra o vento, desafio as novas ondas, agora ao contrário, e novamente de frente. "Liberal!", gritam, "Reacionário!", me acusam, "Retrógrado!", me julgam. Outra vez sou minoria, sou oposição. E a oposição é sempre "errada", é sempre "do contra", é sempre "nociva". Ou seria, melhor dizendo, a situação sempre "certa", e sempre intolerante com os contrários, com os rebeldes, como os liberais capitalistas no poder eram com os comunistas trabalhistas do século XX, e como os assistencialistas trabalhistas são com os liberais capitalistas do século XXI.
Não sou radical como meu xará de sobrenome Bastiat, autor de La Loi, de 1850, publicado dois anos após o Manifest der Kommunistischen Partei, de Marx e outro xará meu, por coincidência, de sobrenome Engels. Bastiat, aquele sim era louco, lunático, viajandão, utópico da extrema direita, defensor do estado menos que mínimo, mas não menos lunático que o ideal de igualdade pregado pelo comunismo, baseado na utopia Rousseauniana da bondade natural. Sou apenas de centro-direita, defendo um Estado forte, porém sensato, que não dê o peixe, mas ensine a pescar, e não deixe de regular os abusos do poder econômico, e promova a reforma agrária (aquela que, incrivelmente, nossa esquerda esqueceu assim que subiu ao poder, como também não se lembra de diminuir uma das maiores cargas horárias trabalhistas semanais do mundo, apesar de se dizer "trabalhista").
Sem puxar a sardinha nem para a brasa da direita e nem da sinistra, digo, da esquerda, pois como já falei, minha bandeira hoje é cinza, o que me intriga é a enorme semelhança entre todas as bandeiras que tremulam sobre o solo brasileiro. Falar do fim das ideologias, da coligação entre siglas sem sentido, que mudam, as siglas e as coligações, a cada eleição, e são diferentes dependendo de outra sigla, a do estado da federação, é chover no molhado. Falo, então, apenas de uma semelhança específica, nociva, destruidora, cruel e antidemocrática: a intolerância.
O ser humano, seja de que banda ele venha, não é igual. Fulano é A, Sicrano é B, Beltrano é C. O ser humano também não é bom, não é solidário (talvez seja no Japão... talvez lá haja uma outra espécie humana, capaz de recolher dinheiro dos outros entre escombros de um terremoto e devolvê-lo ao dono), e, sobretudo, não respeita a opinião alheia. Parece que pertencer a uma maioria, fazer parte da "unanimidade", do "senso comum", tem por efeito colateral tornar-se intolerante. Assim são os heterossexuais em relação aos homo, são os religiosos em relação aos ateus, são os assistencialistas em relação aos liberais capitalistas,  bem como eram os capitalistas em relação aos comunistas.
A democracia não se garante apenas através do sufrágio universal. Este apenas garante que o Estado seja administrado pelo escolhido da maioria. O processo democrático vai muito além, alcança e abrange a liberdade de expressão e, acima de tudo, o respeito à expressão e à opinião alheia, ainda que minoritária.
Assim, quem quer que leia esse humilde desabafo que exteriorizo aqui, faça-me o favor de, em discordando, respeitá-lo. Sou ateu, sou capitalista, acredito na livre iniciativa, não torço pela Seleção Brasileira de Futebol, não curto carnaval, axé e nem música sertaneja, e sou contra o assistencialismo, entre outras coisas. E, acima de tudo, respeito opiniões diferentes das minhas!
Quem estiver navegando de vento em popa, meu parabéns! Navego eu de través, às cambadas, mas navego para onde quero ir, não para onde o vento pretende de me levar.

domingo, 20 de janeiro de 2013

O povo é uma criança

Quem de nós já não preferiu um doce ao almoço, um brinquedo a um livro, a brincadeira ao estudo?
Alguns de nós preferiam e não preferem mais, ou, quem sabe, preferem, mas optam pelo benefício do correto em detrimento do gostoso. Outros preferem e se entregam aos desejos, e continuam nos doces, brinquedos e brincadeiras. É como a piada na TV. Uns já não riem, apenas bocejam. Outros ainda rolam no chão às gargalhadas.
Crianças grandes, de barba, grisalhos ou sem cabelos, dirigem seus brinquedos pelas ruas como se estivessem jogando "Need for Speed" ou "GTA". Diferente da tela do videogame, aqui não há restart. Game over é game over, forever. Crianças grandes, de cílios postiços, silicone nos peitos e cicatrizes de cesária, almoçam brigadeiros e correm para a mesa do cirurgião para aspirar fora as gorduras localizadas. Algumas vão de lá direto para o céu, desfilar magrinhas, magrinhas, nos portões guardados por São Pedro.
Crianças grandes, barbudas ou siliconadas, matam o estudo e o trabalho para estender a brincadeira do carnaval até a segunda-feira seguinte. "Demitido? F...-se!".
Tal qual a criança pequena para quem pais amados são os que dão doces, brinquedos e não cobram responsabilidades, é a criança grande que ama o governante que dá dinheiro no lugar de saúde, educação e cultura. Não quero mais e melhores hospitais, não quero mais e melhores (e mais responsáveis) médicos, não quero mais e melhores escolas e professores, não quero mais e melhores defensores públicos, não quero um transporte público de qualidade, não quero uma cidade limpa, não quero um futuro melhor, ou, melhor dizendo, quero um futuro fantástico, repleto de celulares (um para cada um dos sete filhos) de última geração, com acesso ao Facebook, senão não vale, TVs de LED 3D maiores que a do vizinho, carrões financiados em trocentas parcelas, óculos de sol e bolsas de grife, ainda que falsificadas. 
Quero luxo, ainda que com o lixo acumulando à minha porta porque o prefeito sainte perdeu a eleição para o prefeito entrante.
Celulares, TVs, carros, disfarces para a pobreza, de bolso e de espírito. Pena que não sobrou para um plano de saúde, nem para a escola particular, muito menos para os livros, o teatro ou o cinema. Saúde preventiva? Tá de gozação? Não consigo nem não morrer no chão do corredor da emergência! E para que escola particular, se a pública não reprova mais? E com as cotas, então, diploma garantido de doutor. Tô me lixando se permanecerei um analfabeto funcional. Serei demitido é por estender o carnaval, não por minha educação rasa. Teatro? "Vá, mas não me chame", como diz aquela camiseta que comprei quando fui a Porto Seguro gandaiar. Quer saber? Prefiro um boteco, e sem blitz na saída.
Melhor como está. Me dá a mesada assistencialista aqui, em cash, para eu gastar com doce em vez de almoço, com brinquedo em vez de livro, com plástica em vez de saúde, com cachaça em vez de cultura, para eu poder festar!
E nossos pais políticos sabem muito bem disso. Para estampar no rosto da criança um belo sorriso, dê o que ela pede, não o que ela precisa. Assim, fica garantido, em retribuição, o amor, digo, o voto.