quarta-feira, 25 de junho de 2014

Espólio

Quando morrem nossos avós, encontramos nas gavetas cartas de amor, fotografias, diários e outros vestígios da memória daqueles que se foram.
E quando NÓS morrermos? O que deixaremos em nossas gavetas? Temos gavetas?
Na era na computação em nuvem, nossa memória não vira matéria. Na mesinha de cabeceira virtual, tudo se perde junto com a senha de quem morre. Fotos, emails, posts, tudo é enterrado com seu dono, como jóias de faraós. Ao menos estas um dia são escavadas e expostas ao olhar a admiração de estranhos curiosos.
A gaveta virtual, porém, não deixa vestígios arqueológicos. Não há inscrições na parede da caverna. Não há chaves perdidas a serem encontradas. Não há albuns de fotografias amareladas a serem vasculhadas. Não há cartas de amor a serem violadas. Não há, por fim, histórias a serem reveladas.
A era da informação, do email, do post, é a era do efêmero, da morte sem vestígios, das lembranças "deletadas", das contas de email para sempre encerradas, do passado para sempre apagado.
O mundo virtual não deixa marcas. A eficiência da tecnologia, da redundância, do backup, da seguranca da informação, também é a eficiência do esquecimento, do apagamento, do encerramento.
Aperta-se um botão, clica-se num mouse, e milhares de cartas são rasgadas, milhares de fotos são incineradas sem deixar nem sinal de fumaça, num piscar de olhos.
Talvez nem isso. Talvez apenas um vírus, um HD que "deu pau", e plof! Adeus lembranças! 
A humanidade constrói na nuvem um futuro sem passado, uma morte sem rastros. 
Nossos netos não descobrirão lindas histórias de amor em gavetas trancadas e arrombadas. Não encontrarão fotos empoeiradas, nem guardanapos com beijos de baton, nem ingressos de cinema amarrotados, nem vestígios de perfume, nem flores secas em livros, e nem livros com dedicatórias.
Não quero que meu passado morra comigo. Tratarei de imortalizar minha história concretizando-a, materializando-a, dando-lhe corpo e forma, cor e cheiro. Imprimirei todas as minhas fotos, imprimirei todos os meus emails, posts, comentários, chats. Passarei tudo para o papel, papel que guardarei em gavetas, caixas de sapatos, armários com tamanho, cor e peso. E quero que tudo sobreviva à minha morte. Minhas filhas e netos não precisarão de senhas para ler-me, para ler meus amores, olhar o que vi e fotografei, sentir o que senti, cheirar o que cheirei, entender o que fui, perceber o que percebi, descobrir quem amei, lembrar quem eu fui.
Nessa vida o que passou, passou. Os amores acabados estão mesmo acabados. As histórias concluídas estão mesmo encerradas. Mas suas lembranças merecem ir além da nossa existência terrena. Devem transcender. Os romances podem e devem sobreviver para além de seus protagonistas.
Senão, nada faria sentido. Se um dia tudo acaba, que sentido teria um dia ter existido?


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Retrovisor



É como um farol de carro. 
É como uma tempestade no deserto.
Se olho a luz de frente, ela me cega.
Se encaro o vento, ele levanta a areia na altura dos meus olhos, ele me cega.
Se dou as costas à luz, vejo tudo.
Se dou as costas ao vento, abro meus olhos, e vejo.
Não via nada à frente. Virando-me, vejo tudo.
Só enxergo o que já ficou para trás, quando já não adianta mais.
Não sei enxergar fatos, enxergo apenas marcas no passado. 
Mas aí já está marcado,  já é passado, já sou eu atropelado.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Para não morrer no esquecimento




Outro dia assisti um filme que muito me impressionou: "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004). Trata-se da história de um casal que, terminada a relação, resolve apagar um ao outro da memória através de um tratamento médico especial. O processo consiste em localizar no cérebro as memórias a respeito da outra pessoa e destruir as respectivas conexões nervosas, e, assim, os laços afetivos, as lembranças, tudo, tornando o ser outrora amado num ilustre desconhecido.

Outro dia ocorreu um fato que também muito me impressionou: a morte prematura de um colega de trabalho num estúpido acidente de automóvel. Trata-se da morte de alguém de quem eu gostava, um amigo com quem convivia diariamente, alguém que de repente sumiu da face da terra, morreu.

O filme e o fato então conectaram-se na minha cabeça em alguma ligação nervosa. Nervosa nos dois sentidos. Desde então surgiu em mim um pensamento intrigante. Passei a ver uma relação íntima entre esquecimento e morte. 

Quando uma pessoa morre, nunca mais a vemos, nunca mais a ouvimos, nunca mais a tocamos. Quando apagamos uma pessoa da nossa memória, ou melhor, quando desejamos apagar uma pessoa da nossa memória, quando buscamos nunca mais vê-la, dela nunca mais ouvir falar, esquecer que um dia a tocamos, não seria o mesmo que matá-la? Um morto e um esquecido não teriam sobre nós o mesmo efeito: a ausência total e eterna a todos os nossos sentidos?

Esquecer alguém não é o mesmo que matar esse alguém?

Por que as pessoas querem matar aquelas que um dia amaram? Nunca recebi a notícia da morte de alguém que eu tenha amado no passado (falo aqui exclusivamente do amor romântico), mas tenho certeza de que não seria uma notícia nada prazerosa, muito pelo contrário, por mais que o amor em si estivesse morto e enterrado (com o perdão do trocadilho).

Melhor se fizéssemos como num outro filme, "O vingador do futuro", onde implantavam-se memórias de viagens, fazendo-se a pessoa acreditar que havia viajado para tal e tal lugar, por ter em sua mente lembranças claras e indistinguíveis daquelas produzidas por experiências sensoriais reais. Se eu lembro que fui, então eu fui.

Por que não apagamos, portanto, as lembranças ruins e mantemos as boas? Por que não lembrar dos beijos gostosos, do toque mágico, do olhar único, do sexo maravilhoso, do prazer da companhia, das afinidades, das conversas interessantes, dos motivos que fizeram nascer a paixão e o amor por aquela pessoa?

Cultivar as boas lembranças ou as ruins é uma opção nossa. E, como num cultivo agrícola, é preciso o tempo. O tempo: a grande máquina manipuladora da memória. O tempo nos faz, naturalmente, cultivar o que foi bom e matar o que foi ruim.

Depois de afastados de uma cidade na qual moramos há anos, tendemos a achar que o trânsito nem era tão ruim, que o lugar nem era tão violento, que o clima nem era tão insuportável.

Passada uma época, tendemos a achar que tudo antes era maravilhoso, "bons tempos aqueles ..." dito com um sorriso quase imperceptível e os olhos brilhando focados no infinito. A década anterior era melhor, o século que não vivi era certamente melhor, o que me remete a mais um filme, extraordinário: "Meia-noite em Paris".

Quando crianças, queríamos ser adultos. Hoje, lamentamos não poder voltar no tempo e voltar a ser criança. A infância, guardada na memória e embelezada pelo tempo, nos soa tão linda e perfeita!

Tudo isso não seria apenas uma bela peça pregada pelo tempo e pela nossa memória?

Voltando ao "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", há uma cena em especial da qual gostaria de falar: o herói da história chega ao local de trabalho da ex-namorada. Esta já havia feito o tratamento que apagara por completo qualquer lembrança sobre nosso herói. Ela o olha, indiferente, e pergunta o que ele deseja, como se nunca o tivesse visto antes. Ele agora era um desconhecido. Nosso herói, por sua vez, olha atônito sua ex-amada, dá meia volta, e vai, ele mesmo, não restando outra saída, "curar-se" pelo mesmo tratamento.

O filme é de ficção, é claro. Não sei se um dia a medicina terá esse poder que nem o tempo tem de apagar por completo nossas lembranças, mas se um dia tiver, não o invocaria. Permitam-me estar em paz com meus amores passados, permitam-me lembrar das coisas boas que vivi, das pessoas que amei, permitam-me curtir minha própria história. Fui eu quem a construí, às vezes sozinho, às vezes acompanhado. E essas lembranças, eu as quero. Quero que me acompanhem... até a morte.




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Fagulha no palheiro

 
Basta uma mensagem,
uma notícia.
Na palha seca
do celeiro
do Cerrado, 
vira centelha.
Uma centena
de dias, de anos,
nessa secura,
não servirá
a impedir a fagulha
de queimar
todo o palheiro
e deixar só a agulha.

(poema íntimo)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Edição especial de aniversário.


Hoje acordei quase esquecendo do meu aniversário.
Queria dar-me, eu mesmo, os parabéns.
Desejar-me, eu mesmo, felicidades.
Dar-me um aperto de mãos com minhas próprias mãos.
Dar-me, eu mesmo, tapinhas nas costas.
Afagar-me, com os meus dedos, os cabelos.
Olhar-me nos meus próprios olhos com um olhar amigo.
Sorrir-me com meus próprios dentes.
Desejar-me, eu mesmo, votos de sucesso.
Abraçar-me, eu mesmo, calorosamente.
Dar-me, de mim para mim mesmo, apenas uma lembrancinha, repare não!
Dizer-me, eu mesmo, cinicamente, puxa! você emagreceu!
Telefonar-me, de longe, proclamando saudades de mim mesmo.
Postar fotinhas antigas de mim abraçado comigo, dos tempos em que andávamos juntos, unha e carne.
Relembrar das piadas que ouvi de mim mesmo, do sorriso que dei a mim mesmo um dia, dos momentos inesquecíveis que tive ao meu lado e das barras que passei e eu não me abandonei.
...
Mas na minha casa não há espelho.
Não me vejo cara a cara para dar os parabéns, e nem enxergo meus dentes quando sorrio.
Minhas mãos só trocam apertos de forma desconjuntada.
Não alcanço meus ombros com minhas mãos,
Não alcanço, com meus tapas, as minhas costas.
Se levo as mãos à cabeça, não é para afagos.
Porque preciso do outro, vejam só!
Para tudo isso e muito mais.
Para me refletir no outro e nele aprender.
Para com ele cair, com ele levantar e com ele seguir.
Para a ele dar e dele receber parabéns, amor, dor, seja o que for...



sábado, 5 de outubro de 2013

Distância invertida



Há uma forma especial de saudade
quando se está perto e longe num mesmo instante.
Saudade que passa em frente a uma certa janela,
e torce o pescoço ao ver um certo carro.
Apura os ouvidos para ouvir falar de alguém pelos cantos.
E se não se ouve num canto,
vai-se a outro onde se ouça.
Se um filme, uma canção, um livro, 
um lugar, um cheiro, uma cor,
nos faz lembrar,
espreita-se sem se convidar,
e se imagina o que não se quer nem sonhar.

Há uma forma especial de mudez
quando se quer mas não de pode falar.
Grita-se sem o grito bradar.
E quando brada, não se ouve ecoar.
Escreve-se o que nunca é lido.
Aquelas cartas alimentando a fogueira ou em pedaços.
Por favor, leia antes de queimar...
ou rasgar.

Há uma forma especial de cegueira
quando a lua cheia não clareia.
Ainda que se veja, não se quer enxergar.
Você crê e não quer duvidar.
Lê sem nada assimilar.
Avança, quando é melhor recuar,
e não se aprende que é melhor nem tentar.
Não siga em frente! Melhor parar!

Há uma forma especial de ansiedade
quando a manhã seguinte não quer raiar.
Os olhos abrem e não se quer levantar.
O sangue corre sem querer estancar.
A chaga não fecha,
tudo é só pressa,
Resta só dúvida,
e angústia.

Há uma forma especial de solidão
quando se está perto e longe no mesmo instante.
Quando àquela janela há mais de uma sombra.
Quando naquele carro há uma carona.
Quando se ouve falar de alguém com mais alguém pelos cantos.
Quando certas coisas nos fazem lamentar.
Quando se espreita para constatar.
Quando se percebe que não cabe sonhar.


terça-feira, 9 de julho de 2013

Jack Kerouac - On The Road


Minha relação com a estrada sempre foi de paixão. Como todo menino, colecionava meus carrinhos de ferro. Ainda adolescente, partia em road trips de fim de semana com a prancha no teto do velho Passat, o carro cheio de amigos e daquela insensata alegria juvenil. Mais velho, troco as quatro rodas por duas e entro num motoclube. De moto, a estrada fica mais próxima, sente-se o asfalto correndo por baixo e o vento por cima. À frente, as linhas tracejadas hipnotizantes.
Tantas histórias foram contadas sobre a estrada que surgiu um novo gênero no cinema: o road movie. Pois bem, On The Road seria um road book? Era o que eu achava, mas há muito mais por trás das linhas do livro de Kerouac do que apenas as linhas tracejadas da estrada. A estrada de Kerouac é mais que a estrada do asfalto: é a estrada da vida. Nas entrelinhas da estrada de Kerouac vejo um debate profundo sobre a juventude, o conflito de gerações, o questionamento do que é ou não realmente importante, a adoração à música e às artes, a crítica ao vazio cultural, a abordagem de temas como sexualidade, solidariedade, amor, amizade, drogas, a relação entre pais e filhos, os traumas de infância, a busca pelo pai ausente, a felicidade real e a relação do ser humano com o dinheiro. Tudo isso não cabe entre as linhas de uma estrada, expande-se para além em todas as direções e acima, abaixo e para dentro de nós mesmos.
A profundidade do livro me impressionou. O tema da estrada é um disfarce para tudo isso e ao mesmo tempo uma metáfora brilhante. A estrada da vida é mesmo uma estrada, uma estrada vicinal e esburacada, com muitas curvas, desvios e retornos, e poucas retas. E a estrada só termina com a morte. “Ao infinito e além...”, ainda que em círculos! Esse é o movimento que se vê em “On The Road”.
O livro foi escrito em um parágrafo único com cerca de 125 mil palavras, num rolo de papel de 36 metros. A estrada de Kerouac estava não apenas no conteúdo, mas também na forma do próprio manuscrito. A propósito, Kerouac relutou em modificar a forma original do livro e apenas devido à enorme pressão do editor fez as modificações que tornariam o livro mais “digerível”.
Como nos mostrou a história da literatura, os escritores que ousaram na forma, e Kerouac não foi exceção, só tiveram suas obras reconhecidas e plenamente aceitas décadas depois. O estilo de grandes parágrafos e orações, sem quebras para diálogos, foi mais tarde copiado por autores como José Saramago (que foi além, suprimindo até mesmo as aspas).
On The Road não apenas agrada pelo conteúdo, mas também inova no formato, e tudo ali parece estar relacionado à idéia de velocidade, necessária à perfeita assimilação do que Kerouac queria dizer com a metáfora vida-estrada.
A história começa quando Jack e Neal se conhecem, logo após a morte do pai de Jack. Neal procura Jack, a princípio, numa tentativa de se tornar um escritor (como todo grande livro, On The Road é repleto de referências à literatura), mas Kerouac já induz a uma interpretação mais complexa dessa amizade: Jack diz a Neal: “Porra cara sei muito bem que você não me procurou porque tá a fim de virar escritor...” Neal passa a vida a procurar o pai ausente. A amizade dos dois apresenta esse elo de ligação importante, explorado ao longo de toda a narrativa. A ligação mental entre Jack e Neal é reforçada através de vários recursos do autor, como a repetição vista na frase final do livro (falo disso mais adiante). Jack é obcecado por Neal, e essa obsessão é recíproca. A história não é sobre Neal ou sobre Jack; é a história dos dois e da amizade entre eles, amizade essa que se manifesta sobre o asfalto, sobre quatro rodas.
Kerouac vê a estrada como um rumo à frente, uma direção inevitável e irretornável, onde tudo está à frente e nada resta atrás. Mas, se por um lado Kerouac aponta nossos narizes sempre para frente em passagens como no momento em que chega a Hollywood: “Nada atrás de mim, tudo à minha frente, como sempre acontece na estrada”; por outro, volta e meia insere obstáculo intransponíveis. O oceano é um deles e obriga ao fim e retorno do viajante. Kerouac planeja zarpar num navio, mas essa viagem nunca acontece. O bate-e-volta nas costas leste e oeste lembra uma versão motorizada de Forrest Gump. “Era o fim do continente, nada mais de terra.” A necessidade de retornar ou de desviar da rota é um elemento recorrente na história. A primeira viagem de Jack é planejada cuidadosamente sobre uma reta: a Rota 6, que nasce no Nordeste dos EUA e desce em diagonal até a Califórnia. Jack perde o mapa, o rumo e a esperança de uma execução conforme planejado logo no início da empreitada. Outra viagem, dessa vez ao México, começa dessa forma: “Ali estávamos nós a caminho das desconhecidas terras do sul e a apenas cinco quilômetros da nossa cidade natal, a velha e pobre cidade da nossa infância, quando um estranho e exótico inseto febril levantou-se de misteriosas corrupções para inocular o temor em nossos corações.” Jack refere-se a um inseto que pica o braço de Frank, um dos companheiros de viagem. Aqui mais um simbolismo que talvez represente a mensagem maior do livro: a vida é feita de ações e reações às circunstâncias e quase nunca seguimos pela trilha que marcamos previamente no mapa de nossas vidas. Ou nem sequer sabemos de antemão aonde queremos ir. Ao passarem por Chicago, Neal exclama, eufórico, “Uau! Jack temos que ir e não parar de ir até chegarmos lá.” Jack pergunta “Aonde vamos homem?”, e Neal responde “Não sei mas temos que ir.”
Outra recorrência é a casa de Jack (a casa de sua mãe, em Nova York), seu porto seguro. Em cada viagem, o carro utilizado era parcial ou totalmente destruído, e ao fim de cada viagem sempre se voltava ao ponto de origem sem se saber ao certo o que foi ganho ou por que se fez a viagem. As peças e parachoques que caiam pelo meio do caminho eram os pedaços do próprio Jack: “Onde é que estava a vida? Eu tinha minha casa para ir, meu lugar para descansar a cabeça e calcular as perdas que havia sofrido e calcular o ganho que sabia estar também em algum lugar.”
E Jack queria mesmo parar em algum lugar: “Quero me casar”, ele diz a Neal e Louanne, “e assim poderei descansar meu espírito ao lado de uma garota até que nós dois fiquemos velhos. As coisas não podem continuar assim indefinidamente... todo esse frenesi e essa agitação toda. Temos que chegar a algum lugar, encontrar alguma coisa.” Aliás, a vida familiar é enaltecida por Kerouac em outras passagens, como, por exemplo, quando diz que a paz desceria à terra quando os homens voltassem para casa e pedissem perdão às suas mulheres. Em outro momento, Kerouac eleva a família como objetivo maior da vida: “Toda minha vida arruinada girou diante de meus olhos fatigados, e percebi que não importa o que você faça está fadado a ser uma perda de tempo no fim das contas e você pode muito bem ficar doido. Tudo o que eu queria era afogar minha alma na alma de minha mulher e alcançá-la por meio do emaranhado de mantos que é a carne no leito.” A busca pelo amor aparece também no momento em que, parado numa estação rodoviária, Jack vê passar uma mexicana linda: “Uma dor apunhalou meu coração, como acontecia sempre que via uma garota que eu amava indo na direção oposta nesse nosso mundo grande demais.”
Ao falar de buscas, de amor e de amizade, Kerouac critica os valores da sociedade americana da década de 1940. Vemos Kerouac ironizar a intelectualidade. Também o vemos falar da facilidade da nova geração em fazer novas amizades, obviamente como contraponto à visão hermética e alterofóbica da geração anterior: Jack está “preparado para qualquer espécie de amizade humana” e, de fato, se relaciona com bêbados, prostitutas e vagabundos com a mesma naturalidade com que o faz com intelectuais e famílias “tradicionais”. O conflito entre vagabundos e “cidadãos normais” é colocado com humor. Big Slim Hubbard (segundo Kerouac, um “vagabundo por opção”) é introduzido na história dessa maneira: “quando criança [Big Slim Hubbard] tinha visto um vagabundo se aproximar e pedir um pedaço de torta à sua mãe, e ela lhe deu, e quando o vagabundo sumiu na estrada o garotinho perguntou, “Mãe quem era esse homem?” “Ora é um vagabundo.” “Mãe, quero ser vagabundo um dia.” “Cale a boca, isso não é coisa para os Hubbards.”
A vida segundo Kerouac é uma vida sem mapas, sem bússolas e sem navegadores GPS. É uma vida sem rumo. Não se sabe direito o que se busca, ou se busca o amor mas não se sabe onde ele está e qual a sua forma. E estamos todos conectados. Não somos indivíduos sozinhos no mundo, ainda que sejamos solitários. Estamos conectados à família, aos amigos, ao passado, ao pai ausente, aos bêbados desconhecidos com os quais esbarramos nas sarjetas. Neal representa essa conexão de Jack com o mundo, e esse é o elemento fundamental do livro, sua linha narrativa essencial. O livro começa falando de Neal Cassady: “Encontrei Neal pela primeira vez não muito depois que meu pai morreu...”. E termina no triste último encontro entre os dois amigos-irmãos, encontro no qual há o desencontro espiritual, o rompimento fatal que reinsere Jack em sua própria vida individual. Jack finalmente se liberta de Neal, mas seu pensamento não abandona jamais o amigo, cuja imagem deverá martelar em sua mente para sempre, ressonância simbolizada pela repetição da última frase do livro: “[...] eu penso em Neal Cassady, eu penso até no Velho Neal Cassady o pai que jamais encontramos, eu penso em Neal Cassady, eu penso em Neal Cassady.”
Tal como Jack e Neal, indo e voltando, batendo e rebatendo, esse livro é para ser lido e relido, e ele pulsará na mente do leitor para sempre. Desde que o li, eu penso em Neal Cassady, eu penso em Neal Cassady...