terça-feira, 12 de novembro de 2013

Fagulha no palheiro

 
Basta uma mensagem,
uma notícia.
Na palha seca
do celeiro
do Cerrado, 
vira centelha.
Uma centena
de dias, de anos,
nessa secura,
não servirá
a impedir a fagulha
de queimar
todo o palheiro
e deixar só a agulha.

(poema íntimo)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Edição especial de aniversário.


Hoje acordei quase esquecendo do meu aniversário.
Queria dar-me, eu mesmo, os parabéns.
Desejar-me, eu mesmo, felicidades.
Dar-me um aperto de mãos com minhas próprias mãos.
Dar-me, eu mesmo, tapinhas nas costas.
Afagar-me, com os meus dedos, os cabelos.
Olhar-me nos meus próprios olhos com um olhar amigo.
Sorrir-me com meus próprios dentes.
Desejar-me, eu mesmo, votos de sucesso.
Abraçar-me, eu mesmo, calorosamente.
Dar-me, de mim para mim mesmo, apenas uma lembrancinha, repare não!
Dizer-me, eu mesmo, cinicamente, puxa! você emagreceu!
Telefonar-me, de longe, proclamando saudades de mim mesmo.
Postar fotinhas antigas de mim abraçado comigo, dos tempos em que andávamos juntos, unha e carne.
Relembrar das piadas que ouvi de mim mesmo, do sorriso que dei a mim mesmo um dia, dos momentos inesquecíveis que tive ao meu lado e das barras que passei e eu não me abandonei.
...
Mas na minha casa não há espelho.
Não me vejo cara a cara para dar os parabéns, e nem enxergo meus dentes quando sorrio.
Minhas mãos só trocam apertos de forma desconjuntada.
Não alcanço meus ombros com minhas mãos,
Não alcanço, com meus tapas, as minhas costas.
Se levo as mãos à cabeça, não é para afagos.
Porque preciso do outro, vejam só!
Para tudo isso e muito mais.
Para me refletir no outro e nele aprender.
Para com ele cair, com ele levantar e com ele seguir.
Para a ele dar e dele receber parabéns, amor, dor, seja o que for...



sábado, 5 de outubro de 2013

Distância invertida



Há uma forma especial de saudade
quando se está perto e longe num mesmo instante.
Saudade que passa em frente a uma certa janela,
e torce o pescoço ao ver um certo carro.
Apura os ouvidos para ouvir falar de alguém pelos cantos.
E se não se ouve num canto,
vai-se a outro onde se ouça.
Se um filme, uma canção, um livro, 
um lugar, um cheiro, uma cor,
nos faz lembrar,
espreita-se sem se convidar,
e se imagina o que não se quer nem sonhar.

Há uma forma especial de mudez
quando se quer mas não de pode falar.
Grita-se sem o grito bradar.
E quando brada, não se ouve ecoar.
Escreve-se o que nunca é lido.
Aquelas cartas alimentando a fogueira ou em pedaços.
Por favor, leia antes de queimar...
ou rasgar.

Há uma forma especial de cegueira
quando a lua cheia não clareia.
Ainda que se veja, não se quer enxergar.
Você crê e não quer duvidar.
Lê sem nada assimilar.
Avança, quando é melhor recuar,
e não se aprende que é melhor nem tentar.
Não siga em frente! Melhor parar!

Há uma forma especial de ansiedade
quando a manhã seguinte não quer raiar.
Os olhos abrem e não se quer levantar.
O sangue corre sem querer estancar.
A chaga não fecha,
tudo é só pressa,
Resta só dúvida,
e angústia.

Há uma forma especial de solidão
quando se está perto e longe no mesmo instante.
Quando àquela janela há mais de uma sombra.
Quando naquele carro há uma carona.
Quando se ouve falar de alguém com mais alguém pelos cantos.
Quando certas coisas nos fazem lamentar.
Quando se espreita para constatar.
Quando se percebe que não cabe sonhar.


terça-feira, 9 de julho de 2013

Jack Kerouac - On The Road


Minha relação com a estrada sempre foi de paixão. Como todo menino, colecionava meus carrinhos de ferro. Ainda adolescente, partia em road trips de fim de semana com a prancha no teto do velho Passat, o carro cheio de amigos e daquela insensata alegria juvenil. Mais velho, troco as quatro rodas por duas e entro num motoclube. De moto, a estrada fica mais próxima, sente-se o asfalto correndo por baixo e o vento por cima. À frente, as linhas tracejadas hipnotizantes.
Tantas histórias foram contadas sobre a estrada que surgiu um novo gênero no cinema: o road movie. Pois bem, On The Road seria um road book? Era o que eu achava, mas há muito mais por trás das linhas do livro de Kerouac do que apenas as linhas tracejadas da estrada. A estrada de Kerouac é mais que a estrada do asfalto: é a estrada da vida. Nas entrelinhas da estrada de Kerouac vejo um debate profundo sobre a juventude, o conflito de gerações, o questionamento do que é ou não realmente importante, a adoração à música e às artes, a crítica ao vazio cultural, a abordagem de temas como sexualidade, solidariedade, amor, amizade, drogas, a relação entre pais e filhos, os traumas de infância, a busca pelo pai ausente, a felicidade real e a relação do ser humano com o dinheiro. Tudo isso não cabe entre as linhas de uma estrada, expande-se para além em todas as direções e acima, abaixo e para dentro de nós mesmos.
A profundidade do livro me impressionou. O tema da estrada é um disfarce para tudo isso e ao mesmo tempo uma metáfora brilhante. A estrada da vida é mesmo uma estrada, uma estrada vicinal e esburacada, com muitas curvas, desvios e retornos, e poucas retas. E a estrada só termina com a morte. “Ao infinito e além...”, ainda que em círculos! Esse é o movimento que se vê em “On The Road”.
O livro foi escrito em um parágrafo único com cerca de 125 mil palavras, num rolo de papel de 36 metros. A estrada de Kerouac estava não apenas no conteúdo, mas também na forma do próprio manuscrito. A propósito, Kerouac relutou em modificar a forma original do livro e apenas devido à enorme pressão do editor fez as modificações que tornariam o livro mais “digerível”.
Como nos mostrou a história da literatura, os escritores que ousaram na forma, e Kerouac não foi exceção, só tiveram suas obras reconhecidas e plenamente aceitas décadas depois. O estilo de grandes parágrafos e orações, sem quebras para diálogos, foi mais tarde copiado por autores como José Saramago (que foi além, suprimindo até mesmo as aspas).
On The Road não apenas agrada pelo conteúdo, mas também inova no formato, e tudo ali parece estar relacionado à idéia de velocidade, necessária à perfeita assimilação do que Kerouac queria dizer com a metáfora vida-estrada.
A história começa quando Jack e Neal se conhecem, logo após a morte do pai de Jack. Neal procura Jack, a princípio, numa tentativa de se tornar um escritor (como todo grande livro, On The Road é repleto de referências à literatura), mas Kerouac já induz a uma interpretação mais complexa dessa amizade: Jack diz a Neal: “Porra cara sei muito bem que você não me procurou porque tá a fim de virar escritor...” Neal passa a vida a procurar o pai ausente. A amizade dos dois apresenta esse elo de ligação importante, explorado ao longo de toda a narrativa. A ligação mental entre Jack e Neal é reforçada através de vários recursos do autor, como a repetição vista na frase final do livro (falo disso mais adiante). Jack é obcecado por Neal, e essa obsessão é recíproca. A história não é sobre Neal ou sobre Jack; é a história dos dois e da amizade entre eles, amizade essa que se manifesta sobre o asfalto, sobre quatro rodas.
Kerouac vê a estrada como um rumo à frente, uma direção inevitável e irretornável, onde tudo está à frente e nada resta atrás. Mas, se por um lado Kerouac aponta nossos narizes sempre para frente em passagens como no momento em que chega a Hollywood: “Nada atrás de mim, tudo à minha frente, como sempre acontece na estrada”; por outro, volta e meia insere obstáculo intransponíveis. O oceano é um deles e obriga ao fim e retorno do viajante. Kerouac planeja zarpar num navio, mas essa viagem nunca acontece. O bate-e-volta nas costas leste e oeste lembra uma versão motorizada de Forrest Gump. “Era o fim do continente, nada mais de terra.” A necessidade de retornar ou de desviar da rota é um elemento recorrente na história. A primeira viagem de Jack é planejada cuidadosamente sobre uma reta: a Rota 6, que nasce no Nordeste dos EUA e desce em diagonal até a Califórnia. Jack perde o mapa, o rumo e a esperança de uma execução conforme planejado logo no início da empreitada. Outra viagem, dessa vez ao México, começa dessa forma: “Ali estávamos nós a caminho das desconhecidas terras do sul e a apenas cinco quilômetros da nossa cidade natal, a velha e pobre cidade da nossa infância, quando um estranho e exótico inseto febril levantou-se de misteriosas corrupções para inocular o temor em nossos corações.” Jack refere-se a um inseto que pica o braço de Frank, um dos companheiros de viagem. Aqui mais um simbolismo que talvez represente a mensagem maior do livro: a vida é feita de ações e reações às circunstâncias e quase nunca seguimos pela trilha que marcamos previamente no mapa de nossas vidas. Ou nem sequer sabemos de antemão aonde queremos ir. Ao passarem por Chicago, Neal exclama, eufórico, “Uau! Jack temos que ir e não parar de ir até chegarmos lá.” Jack pergunta “Aonde vamos homem?”, e Neal responde “Não sei mas temos que ir.”
Outra recorrência é a casa de Jack (a casa de sua mãe, em Nova York), seu porto seguro. Em cada viagem, o carro utilizado era parcial ou totalmente destruído, e ao fim de cada viagem sempre se voltava ao ponto de origem sem se saber ao certo o que foi ganho ou por que se fez a viagem. As peças e parachoques que caiam pelo meio do caminho eram os pedaços do próprio Jack: “Onde é que estava a vida? Eu tinha minha casa para ir, meu lugar para descansar a cabeça e calcular as perdas que havia sofrido e calcular o ganho que sabia estar também em algum lugar.”
E Jack queria mesmo parar em algum lugar: “Quero me casar”, ele diz a Neal e Louanne, “e assim poderei descansar meu espírito ao lado de uma garota até que nós dois fiquemos velhos. As coisas não podem continuar assim indefinidamente... todo esse frenesi e essa agitação toda. Temos que chegar a algum lugar, encontrar alguma coisa.” Aliás, a vida familiar é enaltecida por Kerouac em outras passagens, como, por exemplo, quando diz que a paz desceria à terra quando os homens voltassem para casa e pedissem perdão às suas mulheres. Em outro momento, Kerouac eleva a família como objetivo maior da vida: “Toda minha vida arruinada girou diante de meus olhos fatigados, e percebi que não importa o que você faça está fadado a ser uma perda de tempo no fim das contas e você pode muito bem ficar doido. Tudo o que eu queria era afogar minha alma na alma de minha mulher e alcançá-la por meio do emaranhado de mantos que é a carne no leito.” A busca pelo amor aparece também no momento em que, parado numa estação rodoviária, Jack vê passar uma mexicana linda: “Uma dor apunhalou meu coração, como acontecia sempre que via uma garota que eu amava indo na direção oposta nesse nosso mundo grande demais.”
Ao falar de buscas, de amor e de amizade, Kerouac critica os valores da sociedade americana da década de 1940. Vemos Kerouac ironizar a intelectualidade. Também o vemos falar da facilidade da nova geração em fazer novas amizades, obviamente como contraponto à visão hermética e alterofóbica da geração anterior: Jack está “preparado para qualquer espécie de amizade humana” e, de fato, se relaciona com bêbados, prostitutas e vagabundos com a mesma naturalidade com que o faz com intelectuais e famílias “tradicionais”. O conflito entre vagabundos e “cidadãos normais” é colocado com humor. Big Slim Hubbard (segundo Kerouac, um “vagabundo por opção”) é introduzido na história dessa maneira: “quando criança [Big Slim Hubbard] tinha visto um vagabundo se aproximar e pedir um pedaço de torta à sua mãe, e ela lhe deu, e quando o vagabundo sumiu na estrada o garotinho perguntou, “Mãe quem era esse homem?” “Ora é um vagabundo.” “Mãe, quero ser vagabundo um dia.” “Cale a boca, isso não é coisa para os Hubbards.”
A vida segundo Kerouac é uma vida sem mapas, sem bússolas e sem navegadores GPS. É uma vida sem rumo. Não se sabe direito o que se busca, ou se busca o amor mas não se sabe onde ele está e qual a sua forma. E estamos todos conectados. Não somos indivíduos sozinhos no mundo, ainda que sejamos solitários. Estamos conectados à família, aos amigos, ao passado, ao pai ausente, aos bêbados desconhecidos com os quais esbarramos nas sarjetas. Neal representa essa conexão de Jack com o mundo, e esse é o elemento fundamental do livro, sua linha narrativa essencial. O livro começa falando de Neal Cassady: “Encontrei Neal pela primeira vez não muito depois que meu pai morreu...”. E termina no triste último encontro entre os dois amigos-irmãos, encontro no qual há o desencontro espiritual, o rompimento fatal que reinsere Jack em sua própria vida individual. Jack finalmente se liberta de Neal, mas seu pensamento não abandona jamais o amigo, cuja imagem deverá martelar em sua mente para sempre, ressonância simbolizada pela repetição da última frase do livro: “[...] eu penso em Neal Cassady, eu penso até no Velho Neal Cassady o pai que jamais encontramos, eu penso em Neal Cassady, eu penso em Neal Cassady.”
Tal como Jack e Neal, indo e voltando, batendo e rebatendo, esse livro é para ser lido e relido, e ele pulsará na mente do leitor para sempre. Desde que o li, eu penso em Neal Cassady, eu penso em Neal Cassady...

terça-feira, 30 de abril de 2013

Meu romance com os romances

Há quem goste de contos. Há quem goste de crônicas. Outros amam a poesia. Mas há quem prefira, como eu, romances.
Claro que me divertem as curruíras nanicas do Dalton Trevisan, os contículos pulguentos do Charles Bukowski e a cadeira de balanço do Carlos Drummond de Andrade. Também contos maiores, clássicos, do Anton Tchekhov, ou modernos, da Isabel Allende. Há contos enormes, mas que se leem numa só sentada, ou deitada. Que se lê o prefácio em Curitiba e o posfácio em Brasília, em que os personagens se conhecem em São Paulo e ao pousarem no Rio já foram felizes para sempre.
Como nos relacionamentos, há os rápidos e intensos, cujo prazer chega num pé e sai no outro, e há os lentos, duradouros, sólidos, que vão conquistando devagar, dia após dia, página após página. Assim é a relação com o romance, estrutura maior e mais complexa, recheada de contos, às vezes também crônicas, e muitas vezes poesia, ainda que em prosa.
É preciso ler grandes romances para entender do que estou falando. Grandes em qualidade e em tamanho. Aqueles bem grossos, assustadores aos coraçõezinhos desacostumados, os clássicos, aqueles que já passaram pelo crivo da História. Mas é como ir à academia depois das férias. Só dói no primeiro dia. 
Você precisa se envolver com os personagens, criar uma relação com eles, sentir saudade deles, sofrer junto, vibrar com suas conquistas, chorar suas dores, planejar suas vinganças, reprovar seus erros, reconhecer seus méritos, rezar para que se salvem. É preciso torcer pelo casal que quer ficar junto, pelo pai quer resgatar a filha, pelo detetive que persegue o autor do crime, pelo rei que defende seu reino, pela mãe que defende seu filho, pelo louco que se acha são. É preciso morrer as mortes dos personagens, e morrer de curiosidade pelo desfecho da história. Deve-se entrar nas páginas, molhar-se na tinta, respirar o ar que tomava o quarto do escritor, sentir sua pena riscando nossa pele. 
Tudo isso exige tempo. Exige que o livro durma ao nosso lado, em nossa mesinha de cabeceira, nos acompanhe na mochila ou na bolsa a todo lugar, nos faça companhia nas filas do banco e do supermercado, ande conosco no ônibus e no metrô, viaje conosco na ponte aérea ou no voo intercontinental, tome sol conosco na praia ou na piscina, vá conosco ao banco da praça ou do parque, ou simplesmente sente conosco no sofá da sala.
Na rapidinha do conto, na frieza da crônica e na beleza curta de um poema, viaja-se, mas é pegar um táxi, ou ir a pé ali na esquina. Ou é ir longe, mas num foguete à velocidade da luz. Não é melhor, nem pior. Mas é sexo rápido, na escada, no carro. Tira-se a roupa e já se sente o orgasmo. 
No amor leitor-romance, o sexo é tântrico, dura dias, semanas, meses ou anos. É namoro firme, relacionamento sério na rede social, anel dourado no anelar direito, e depois no esquerdo. Talvez o romance tenha esse nome porque nos conquista, nos enamoramos dele, e com ele casamos até que a morte nos separe...


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Filhos e poemas


Amor e dor são ingredientes presentes nas receitas de filhos e poemas. Para facilitar, vamos escrever uma só. Faça um deles, ou faça os dois ao mesmo tempo, a seu critério.

Comece pelo amor. Será preciso aqui um trabalho a quatro mãos, ou dois corações. Como toda receita complexa, comum em pratos sofisticados, sem um ajudante, ou melhor, um co-autor, ou melhor, um amante, sujam-se panelas e acessórios e termina-se pedindo uma pizza pelo telefone.
Junte os dois amores num recipiente. Pode ser um parque, uma praia, um avião, um banco de praça, seu trabalho ou mesmo um site de relacionamentos. O importante é que um mestre-cuca enxergue o outro e mais ninguém, independente do tamanho da cozinha e da população em volta. Essa receita, um não faz sozinho, e mais de dois entorna o caldo.
Em seguida jogue as sementes. Podem ser de girassol, de alecrim ou de dó-ré-si-bemol. No caldo do amor, aquecido em fogo brando ou alto, dependendo da pressa e da fome, as sementes germinarão. Um corpinho começará a crescer. Versos e estrofes tomarão forma. Um olhinho aqui, uma palavra acolá. Uma rima emparelhada, outra cruzada. Orelhinhas emparelhadas, perninhas cruzadas. Não dá ainda para ver o sexo.
Mexa sem parar, para não desandar. Se parar não dá liga, vai solar. Também não pare de temperar. Se parar, vai azedar, ou salgar. A massa cresce, o corpo cresce, o amor em forma de ser, ou de poema, intumesce e aparece. Já dá para ver o sexo. Pode ser menino ou menina. Podem ser gêmeos no ventre ou mesmo na poesia. Tanto num como noutro, vale menino com menina, menino com menino ou menina com menina.
O feto e o rascunho viram gente e poema. Corpo completo, cabeça, tronco e membros, dísticos, quartetos e sextilhas. Já não cabe mais na panela, e nem no ventre, e nem na mente. E vem a dor. Prepare-se, este é o passo fundamental, o toque de mestre, o tempero final.
As contrações nas entranhas, no alto e no baixo ventre. Algo dentro de nós cresceu demais e tem de sair. A dor do parto, a dor que expulsa o filho do útero materno, a dor que jorra pela ponta dos dedos no sangue que transcreve o poema em letras escarlate. A poesia que toma forma, a semente que vira gente. Já não cabe em mim e nem em ti. É preciso dá-la à luz, levá-la à mesa, com choro e riso, velas e um bom vinho.
E olhamos aquela coisinha inacreditável que saiu de nós. É a cara do pai! Não, é a cara mãe! Tem traços dos dois! Cada linha, cada pausa, cada rima, cada acento, cada erro, cada acerto. Nos vemos ali. É nosso amor que tomou forma, de criança, de prosa ou de verso.
Sirva enquanto quente, beije, abrace, cheire, leia, releia, aproveite. Depois o filho cresce, o poema envelhece. Os traços mudam, as traças traçam. A tinta desbota. Mas sempre serão nossos filhos, nossa obra-prima, tanto a criança, para sempre criança, como o poema, para sempre poesia.
Amor e dor aparecem nas receitas de filhos e poemas. O amor inspira, concebe e gera. O amor cresce dentro de nós até não caber mais. A dor expulsa e pare. É um parto natural. Depois amamos aquele ser, aquele poema que se escreveu. E ele é a cara do pai e da mãe, digo, do amor do qual nasceu.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Eternidade efêmera

Ele acordou outro dia e olhou para o teto, a página em branco na qual costumava escrever seus mais repentinos pensamentos matinais. Percebeu que não queria mais o resto, só o certo.
Conhecera-a e reconhecera-a singular, diferente, única, também farta de começos e fins, e que buscava, enfim, o transcendental, aquilo que não nascia do físico e dele não herdava seus castelos de areia..
Aquele homem percebia que já se havia satisfeito em tudo. Sua vontade dali em diante, atendendo a sua própria e sincera convicção volitiva, encerrava-se na vida ao lado daquela e de mais nenhuma. Sua libido não mais respondia aos estímulos fugazes de traseiros rebolativos, pernas expostas, olhares vulgares ou esta ou outra artimanha feminina.
Seu único sexo longe da amada era o solitário e em sua homenagem, na lembrança de sua imagem, do cheiro, do decote generoso, da maciez da pele da parte interna das coxas, das mãos leves e carinhosas, dos lábios entreabertos num convite, do olhar hipnotizante e da Yoni perfeita..
Ao encontrá-la, reafirmava seu sentimento pela presença. Ao despedir-se, convencia-se pela ausência. Assim, o prazer do encontro e a dor da distância eram sentimentos opostos que em soma e subtração resultavam no convencimento do amor que nascia para uma vida eterna.
O medo de que seu sentimento fosse filho único, sem gêmeo no ventre de sua amada, assim como dois vulcões dificilmente entram em erupção ao mesmo tempo, exigia-lhe provas de amor todo dia, até na madrugada exausta..
Certa vez, teve a certeza de ter-se enganado quanto ao amor, ou acertado quanto ao seu medo, ao encontrar no diário de sua diva, dirigidas a outrem, as palavras que tanto sonhava em ouvir. Cartas que ela escreveu, mas não me escreveu.
Razão e sentimento imediatamente em postos na batalha, como crianças empunhando espadas de madeira. Não se golpeavam mutuamente, mas sim a sua cabeça, afastando-lhe o sono e o sossego.
Como Otelo, ressonavam-lhe na mente intrigas e suspeitas, não de traições, decerto, mas de que sua musa não era muda por si, mas abstinha-se de falar apenas a ele. Ela tinha em seu intimo os sonhos que ele lhe cobrava, mas neles ele nunca aparecia.
Inobstante a convicção de que o amor só é explicável por aquilo que não é descritível, associava a esse amor, no afã de justificá-lo, infinitos atributos, do caráter aos lindos olhos, do talento aos lábios solícitos, entreabertos, do espírito ao corpo.
Mas quando o amor se rende à razão, melhor seria acordar dessa eternidade efêmera. Coração não pensa e cabeça não sabe amar. Se pensa, não ama, se ama, não pensa. Se ama, não esquece, se ama, não acorda. Não sei brincar de nunca mais descontar no corpo o tesão que se sente pela alma.