segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Coração Balão

O amor é um gás
ocupa todo o espaço
à frente, acima, abaixo e atrás
no coração hospedeiro
agitado, expande-se
comprimido, esquenta
ferido o coração
escapa por qualquer fenda
Será que o coração aguenta?

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Tacape


Um dia desses um amigo veio a mim se queixar dos eventos sociais de que a esposa lhe obrigava a participar. Eram jantares da família dela, almoços dos colegas do trabalho dela, aniversários dos sobrinhos dela (sim, aqueles em buffets infantis), e todo tipo mais de encontro no qual, por falta de intimidade e de passado com os demais presentes, o tempo custa a passar. E custa caro.
Minutos intermináveis nos quais todos os pensamentos filosóficos, sociológicos e antropofágicos, digo, antropológicos a respeito das relações humanas nos vêm à mente. Por quê? Por que estou aqui? 
Nas relações do jogo de favores, das trocas de obrigações, das demonstrações de amor através do sacrifício, das cessões e consentimentos, concessões e resignação, cada favor realizado é um favor a ser cobrado, cada doação é um direito a retribuição a ser lembrado.
Na contabilidade do toma lá dá cá, os créditos nunca são esquecidos e nem os débitos perdoados. Auditoria implacável que exige o ajuste de contas diariamente. Livro-razão? Não. Está mais parfa livro-emoção.. É puro instinto de posse e de necessidade de provas por parte do outro. Apenas o sacrifício alheio nos contenta e satisfaz. 
O homo sapiens do século XXI ainda usa seu tacape e arrasta parceiros pelos cabelos.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Tô chegando!


Ah! Que saudade de ti
minha dama fiel
que a ninguém permite que se acoste
exceto eu
que a ninguém permite que se enrosque
minha linda
que no meu quarto
me espera
não importa por onde eu ande
não importa aonde eu vá
espera a minha volta
sempre pronta
pernas firmes
ancas largas
onde caibo inteiro
e me deito
e adormeço
e sonho
e quando longe contigo sonho
e te desejo
e ao chegar te vejo
em brancos cetins
ou algodão ou afins
me atiro sobre ti
minha deusa
e peço que me abrace
e me aqueça
e me descanse
e me afogue
em teus lençois
até de manhã!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Olhar


Aqueles olhos fugidios... tão fácil e tão difícil olhá-los.
Correm como crianças tímidas, voam como pássaros selvagens, fogem como o tempo.
Oferecem seu flanco, dão as costas, não se entregam.
O tímido olhar sobre o novo. O novo que, por ser novo, é tudo. É euforia, é alegria, é prazer, mas não é amor.
O sinal do amor está no olhar. Na capacidade de fixar o olhar no outro, sem o desejo de desviar, sem a necessidade da fuga. No desejo e na possibilidade de calmamente e pacientemente apreciar o olhar do outro, sem pressa, num diálogo lento, profundo, sereno e furiosamente silencioso.
Movimento apenas o suficiente para ir de um olho ao outro. Não há fuga nem para os lados, nem para dentro. Não há esquiva nem medo.
As pupilas dilatadas invadindo a íris, tomando conta, na expansão que visa captar tudo, cada cor e cada ponto do outro.
Olhar que olha, que lambe, que cheira, que fala, ouve e ama.
No rosto, apenas um sorriso sutil, velado... ou não, um sorriso escancarado, mas apenas um sorriso.
O silêncio deve ser mantido, pois os olhos pedem atenção e concentração. Nenhuma energia deve ser desperdiçada em qualquer outro sentido. Nenhuma perturbação é tolerada.
O olhar é o único leito por onde escoar.
Como o olhar do náufrago para a ilha no horizonte.
Como o olhar do crente aos céus.
Como o olhar da mãe para o bebê que dorme.
Como o olhar da criança para o brinquedo predileto.
Como o olhar do cão para o seu dono.
Como o olhar do filho para o pai que chega.
Como o olhar para alguém querido no leito de morte.
Como os olhares que substituem os corpos, no pesadelo refrigerado de Henry Miller.
Como o olhar de Maria de Magdala para Jesus, no evangelho segundo Saramago.
Como o olhar cinquentenario e incansável de Florentino Ariza para Fermina Daza.
O verdadeiro amor só se manifesta por esse meio.
Abraços, carícias, beijos, nada disso realmente importa. São acessórios, coadjuvantes de algo maior. Por si só não amam, e o amor independe deles.
Porém, não se prescinde do olhar.
Porque é o único caminho para o outro, a única porta de entrada, a única estrada, a ponte sobre o fosso, a passagem na muralha, a barca de Caronte, o único caminho possível, o leito natural do rio, a trajetória implacável do raio, o caminho suave e lento da gota de orvalho.
Porque o amor está no intangível, no inexplicável e no indescritível. Não se pode percebê-lo, não se pode tocá-lo, não se pode sentir seu gosto, não se pode cheirá-lo, apenas sentí-lo através do olhar.
A textura, a temperatura, o gosto, o cheiro, tudo isso que se toca, se lambe e se cheira é apenas corpo, pó em forma de vida. O contato com a alma é etéreo. A alma não se toca, nem sequer se vê ou se enxerga, apenas se olha.
E o olhar do amor são dois olhares. Não se olha sozinho. É preciso um olhar no olhar do outro. São duas janelas abertas para que corra o vento, para que se olhe através da carne e se perceba a essência e a verdade.
Se você consegue olhar assim, se você realmente se sente conectado assim, se o outro também o olha, e os olhos se perseguem e não se esquivam, e se um sorriso acompanha esse olhar, e se uma paz nesse momento desce como um manto e dá abrigo a esse olhar mútuo, recíproco, cúmplice, se tudo isso acontece assim, desse jeito, então aconteceu o amor.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Jornada mágica

O amanhecer preguiçoso, feliz, com o passado ali presente,
O jazz que anunciava o que vinha, um presságio,
Bukowski vestindo uma estante da cabeça aos pés,
A vida simples falando de coragem, de livros, de perdão e de alimento,
A música nas ruas,
As pessoas, vivas, nas ruas,
Todas as cores e credos nas ruas,
O festival de rock, tão cheio de diversidade,
O solo inesperado numa bateria no primeiro andar de um hospital em ruínas, e a gostosa sensação de tocar onde menos se espera,
O cachorro quente que foi um delicioso almoço,
O sol escaldante que atravessou obstáculos e me alcançou por uma fresta,
E eu rindo do desejo de alguém pela chuva,
Aqueles olhos da cor do céu e do mar, do horizonte, olhos em preto e branco iluminados pelo sol,
Aquela beleza ruiva que irradia e contamina tudo,
E tudo em volta então é belo, o belo e o feio.
O "eu te amo, estou com saudades" da filha amada,
O simples flanar na companhia certa,
A escada para o céu,
A lembrança da peça encenada entre os mortos na noite anterior, assistida entre vivos queridos de longas datas,
E sentindo-me tão vivo,
E a peça era sobre outra jornada, tão triste e ao mesmo tempo tão bela,
E o filme sensacional que me marcou para sempre,
A história da busca, das escolhas,
Assistido onde deveria mesmo ter sido, na rua da diversidade, da juventude, dos contrastes, dos estudantes, dos bêbados, dos loucos e de qualquer um e de todos, a velha Augusta,
O encontro com Saramago, Wilde, Gorki e Baudelaire nos sebos de calçada, e o convite aceito de que viessem na minha mala, junto com Kubrick.
Aquele cheiro inebriante sempre presente,
Aquele riso tímido sempre presente,
Aquele olhar furtivo sempre presente,
Um dia de música, de paz, de surpresas, de felicidade, de gozo.
Peace, love, joy, como aprendi em San Francisco.
A companhia perfeita, um espírito distante que se materializava tão real e presente,
Em paralelo, a leitura do pesadelo refrigerado de Henry Miller, transportando-me por outra estrada, por outra jornada,
E aqui um dia memorável, uma jornada inesquecível, une journée magique, nem Ulysses a teve, nem a de Harry Haller foi tão louca,
Um tal estado de elevação que nem o deserto de Rimbaud e nem a floresta de Sidartha ocasionariam,
Bukowski sairia daquela estante e o curtiria,
Kubrick sairia da mochila e o filmaria,
Baudelaire, extasiado, comporia versos,
Um dia que não terminou,
e nem nunca terminará,
Um passado que permanece e se estende ao futuro.
...
O tempo enlouquece.
A ampulheta cai e a areia, sem saber para que lado ir, não vai a lugar algum, baixa os olhos e se dá por vencida, talvez ela mesma cansada de tanto correr e escorrer.
Às vezes o tempo pára, na sua frente, te olha, sorrindo para você, te acaricia o rosto, te beija, te afaga e te diz: "não se preocupe... estou aqui... não vou embora... durma e sonhe!"


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Se eu fechar os olhos.


E se eu fechasse os olhos?
O teto do meu quarto poderia ser o teto do teu quarto.
O lençol embaixo do meu corpo poderia ser o teu lençol.
Ao meu lado poderia estar, se bem imaginado, tu, dormindo.
E não de fato, mas de imaginação, eu estaria não aqui, mas aí. Aí mesmo onde eu gostaria e por isso imaginaria estar.
Basta fechar os olhos.
E tu não estarias aí, mas aqui.
Tu estarias comigo, e não com... não sei quem.
Basta imaginar que nada acabou. Que ainda te tenho. Que ainda me tens. E que ainda é a primavera do ano passado. E que o amor passado é amor presente.
Basta fechar os olhos e o coração se cura, se alegra. 

Basta fechar os olhos...


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Minha árvore de Natal


Na raiz, o Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, afinal é da língua que a árvore de livros puxará sua seiva.
Subindo pelo tronco, são todos livros que eu já li. Eu queria uma árvore que eu conhecesse por fora e por dentro.
O tronco começa com livros robustos, para dar firmeza. Ana Karenina, do Tolstoi, porque Natal lembra família e afinal, como Tolstoi nos ensina na primeira frase do livro, "todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira."
Depois, a coletânea da Jane Austen, porque Natal lembra Ding-o-bell, que lembra a língua inglesa, que lembra sua maior escritora.
A  fugitiva, quinto volume de Em Busca do Tempo Perdido, do Marcel Proust, por ser o escritor mais elegante que conheço. Sua prosa impecável dá charme à árvore.
Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez. Sem ele a árvore não seria tão fantástica.
O Grande Gatsby, do Francis Scott Fitzgerald, dando glamour a esse vegetal.
Odisséia,  de Homero, narrando a volta de Ulisses à sua árvore de Natal.
Ilusões Perdidas, do Honoré de Balzac, lembrando-nos que a vida não é feita só de natais.
O Lobo da Estepe, do Hermann Hesse, livro em cuja casca gravo meu nome.
Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Homenagem póstuma ao protagonista do livro.
Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, mostrando-nos o que será dos nossos natais um dia.
A Metamorfose, do Kafka, numa referência à própria transfiguração dos livros em galhos e folhas.
Recordações da Casa dos Mortos, do Dostoievski, porque Natal lembra neve, que lembra Sibéria, cenário desse livro.
Histórias de Cronópios e de Famas, do Julio Cortazar, porque só um cronópio como eu teria tido a idéia de vincular esse livro ao Natal.
Doutor Fausto, do Thomas Mann, porque é preciso um pouco de música para se fazer Natal.
Viva o Povo Brasileiro, do João Ubaldo Ribeiro. Afinal, a árvore é brasileira. Viva ela!
On The Road, do Jack Kerouac, porque acima de tudo essa árvore é uma grande viagem.
Por fim, no galho mais alto, o grande Charles Bukowski e seu Ao Sul de Lugar Nenhum trazendo à tona e ao posto mais alto os subterrâneos da vida.
E como em toda boa árvore, nela pousa um passarinho: um poema em forma de caixinha de presente da série "Escritos para uso pessoal e doméstico", da escritora goiana Cássia Fernandes.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Cara-n-avos (ou os outros gominhos da laranja)

Umas me trataram como um deus, me idolatraram, me adoraram.
Outras me trataram como um bebê, me deram colo, me deram o seio, me deram comida, me deram calor.
Umas realizaram minhas fantasias, outras se assustaram.
Umas me pediram fantasias, outras se negaram.
Umas foram santas, outras foram livres.
Umas me deixaram,  outras me perseguiram.
Umas partiram, nem todas se despediram.
Umas me batiam, outras pediam, mas não apanhavam.
Umas me cuspiram, outras me babaram.
Umas me ajudaram, outras me sugaram.
Outras me trataram como mais um, me usaram, se satisfizeram.
Outras me trataram com amizade, me ouviram, me aconselharam, velaram por mim.
Outras me trataram como inimigo, me maltrataram, me prejudicaram, me roubaram.
Outras nem me trataram de forma alguma, apenas me viram e passaram.
Mas todas me tocaram, de todas gostei de alguma forma e muitas me magoaram de alguma maneira.
Nenhuma me foi absolutamente boa ou má, algumas foram mais ... outras foram menos ... mas todas foram.
Não tenho cara-metade. Tenho cara-n-avos.
E cada gominho sozinho não faz uma metade de laranja.


terça-feira, 8 de julho de 2014

Forças fundamentais

Há uma teoria na Física que diz haver apenas três forças fundamentais regendo o Universo: a gravitacional, a forte e a eletrofraca.
Há um grande amigo que diz haver apenas três forças fundamentais regendo o ser humano: o alarido das palmas, o tilintar das moedas e o gemido das mulheres.
Chego a conclusão, contudo, de que são outras as três forças fundamentais que explicam o comportamento humano: o amor, a solidão e o orgulho.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Alianças

Desde priscas eras (parafraseando um certo professor de Direito que admiro muito), o homem (e a mulher - dada a pressão recente para que ao masculino não seja permitido representar o ser humano linguisticamente) adota símbolos de compromisso, de posse em relação ao outro ou às coisas que possui (ou pensa que possui).
Tal qual marcas de ferro em couro de boi, coleiras de couro em pescoço de cachorro, capas distintivas em cadernos de escola ou etiquetas com nomes em malas de viagem, colocamos em quem nos interessa marcar nossos sinais de posse e propriedade.
Alianças e anéis de compromisso são as marcas de ferro mais tradicionais. Mas há quem queira algo que não escape do dedo e role ao primeiro bueiro. Tatuagens com o nome do amado-proprietário bem à mostra, no braço, no pescoço, ou, num requinte de crueldade, nas partes mais íntimas, para que sejam mostradas bem na hora H a parceiros subsequentes. Tatuagens que viram manchas escuras e disformes em vãs tentativas de correção ortográfica. "O que é isso?" "Uma tatuagem, meu bem!" "Mas o que significa?" "Uma nuvem negra de chuva, não está vendo?".
Enquanto válidas, são lindas. Expiradas, o nome do falecido no mármore da pele soa mais como um epitáfio.
Melhor usar marcas genéricas que sobrevivam às mudanças: "Sou sua", "Vem, meu bem!", "Paixão da minha vida" ou algo assim, sem endereço certo. Pode-se também, com algum (enorme) trabalho adicional, só se relacionar com pessoas de mesmo nome. Para tornar a façanha menos impossível, deve-se escolher um nome comum. Prefira Maria a Vaudelina, João a Ronicleiton. Dessa forma, pode-se reutilizar, reciclar, sendo politicamente correto, ecológico e evitando o desperdício de tinta de tatuagem, a marca do antigo dono. Cuidado apenas para não mostrar a etiqueta antiga na primeira noite. Deve-se ocultá-la até o dia em que seja conveniente dizer sem levantar suspeitas "Meu bem, olha a tatuagem que fiz para você! Não ficou linda?". Desnecessário dizer que a tatoo com o nome reciclável deve ser restaurada de tempos em tempos a fim de parecer sempre nova.
A tecnologia, todavia, tem facilitado esse doloroso processo de marca-desmarca. Não se marca mais a ferro no próprio couro, mas na pele cibernética das redes sociais. Um clique e surge uma nova etiqueta, uma nova aliança, um relacionamento "sério" com alguém, noticiado globalmente a familiares, amigos, inimigos e desconhecidos. Outro clique e tchau amor da minha vida! Novo status: solteiro(a)! Uhuuu! Na pista de novo e pegando geral, passando o rodo! Após uma noite inesquecível, novo clique e... e depois e depois e depois, sempre mais do mesmo. A internet em nuvem chovendo na forma dos amores líquefeitos de Zygmunt Bauman.
Vivemos na sociedade do anel virtual, a internet é a nova senhora dos anéis (não resisto a esse trocadilhos infames). Mas é no mundo real que brilha ainda o ouro da tradicional e inigualável aliança de casamento. Status algum do mundo cibernético conseguirá superar a força de tal símbolo. As bem casadas mal coitadas do José Avelino Dias levantando xícaras e mostrando "distraidamente" o dedinho reluzente em grosso dourado, mortas de orgulhosas. Porque o prazer não é só de quem marca, mas também de quem é marcado.
Seja na realidade de nossas mãos calejadas, seja na fumaça etérea de nossas páginas virtuais, fato é que nem sempre tudo é para sempre. E, se o laço acaba, que se parta a aliança e fiquem cá os dedos. Porque, afinal, ninguém é de ferro!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Espólio

Quando morrem nossos avós, encontramos nas gavetas cartas de amor, fotografias, diários e outros vestígios da memória daqueles que se foram.
E quando NÓS morrermos? O que deixaremos em nossas gavetas? Temos gavetas?
Na era na computação em nuvem, nossa memória não vira matéria. Na mesinha de cabeceira virtual, tudo se perde junto com a senha de quem morre. Fotos, emails, posts, tudo é enterrado com seu dono, como jóias de faraós. Ao menos estas um dia são escavadas e expostas ao olhar a admiração de estranhos curiosos.
A gaveta virtual, porém, não deixa vestígios arqueológicos. Não há inscrições na parede da caverna. Não há chaves perdidas a serem encontradas. Não há albuns de fotografias amareladas a serem vasculhadas. Não há cartas de amor a serem violadas. Não há, por fim, histórias a serem reveladas.
A era da informação, do email, do post, é a era do efêmero, da morte sem vestígios, das lembranças "deletadas", das contas de email para sempre encerradas, do passado para sempre apagado.
O mundo virtual não deixa marcas. A eficiência da tecnologia, da redundância, do backup, da seguranca da informação, também é a eficiência do esquecimento, do apagamento, do encerramento.
Aperta-se um botão, clica-se num mouse, e milhares de cartas são rasgadas, milhares de fotos são incineradas sem deixar nem sinal de fumaça, num piscar de olhos.
Talvez nem isso. Talvez apenas um vírus, um HD que "deu pau", e plof! Adeus lembranças! 
A humanidade constrói na nuvem um futuro sem passado, uma morte sem rastros. 
Nossos netos não descobrirão lindas histórias de amor em gavetas trancadas e arrombadas. Não encontrarão fotos empoeiradas, nem guardanapos com beijos de baton, nem ingressos de cinema amarrotados, nem vestígios de perfume, nem flores secas em livros, e nem livros com dedicatórias.
Não quero que meu passado morra comigo. Tratarei de imortalizar minha história concretizando-a, materializando-a, dando-lhe corpo e forma, cor e cheiro. Imprimirei todas as minhas fotos, imprimirei todos os meus emails, posts, comentários, chats. Passarei tudo para o papel, papel que guardarei em gavetas, caixas de sapatos, armários com tamanho, cor e peso. E quero que tudo sobreviva à minha morte. Minhas filhas e netos não precisarão de senhas para ler-me, para ler meus amores, olhar o que vi e fotografei, sentir o que senti, cheirar o que cheirei, entender o que fui, perceber o que percebi, descobrir quem amei, lembrar quem eu fui.
Nessa vida o que passou, passou. Os amores acabados estão mesmo acabados. As histórias concluídas estão mesmo encerradas. Mas suas lembranças merecem ir além da nossa existência terrena. Devem transcender. Os romances podem e devem sobreviver para além de seus protagonistas.
Senão, nada faria sentido. Se um dia tudo acaba, que sentido teria um dia ter existido?


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Retrovisor



É como um farol de carro. 
É como uma tempestade no deserto.
Se olho a luz de frente, ela me cega.
Se encaro o vento, ele levanta a areia na altura dos meus olhos, ele me cega.
Se dou as costas à luz, vejo tudo.
Se dou as costas ao vento, abro meus olhos, e vejo.
Não via nada à frente. Virando-me, vejo tudo.
Só enxergo o que já ficou para trás, quando já não adianta mais.
Não sei enxergar fatos, enxergo apenas marcas no passado. 
Mas aí já está marcado,  já é passado, já sou eu atropelado.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Para não morrer no esquecimento




Outro dia assisti um filme que muito me impressionou: "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004). Trata-se da história de um casal que, terminada a relação, resolve apagar um ao outro da memória através de um tratamento médico especial. O processo consiste em localizar no cérebro as memórias a respeito da outra pessoa e destruir as respectivas conexões nervosas, e, assim, os laços afetivos, as lembranças, tudo, tornando o ser outrora amado num ilustre desconhecido.

Outro dia ocorreu um fato que também muito me impressionou: a morte prematura de um colega de trabalho num estúpido acidente de automóvel. Trata-se da morte de alguém de quem eu gostava, um amigo com quem convivia diariamente, alguém que de repente sumiu da face da terra, morreu.

O filme e o fato então conectaram-se na minha cabeça em alguma ligação nervosa. Nervosa nos dois sentidos. Desde então surgiu em mim um pensamento intrigante. Passei a ver uma relação íntima entre esquecimento e morte. 

Quando uma pessoa morre, nunca mais a vemos, nunca mais a ouvimos, nunca mais a tocamos. Quando apagamos uma pessoa da nossa memória, ou melhor, quando desejamos apagar uma pessoa da nossa memória, quando buscamos nunca mais vê-la, dela nunca mais ouvir falar, esquecer que um dia a tocamos, não seria o mesmo que matá-la? Um morto e um esquecido não teriam sobre nós o mesmo efeito: a ausência total e eterna a todos os nossos sentidos?

Esquecer alguém não é o mesmo que matar esse alguém?

Por que as pessoas querem matar aquelas que um dia amaram? Nunca recebi a notícia da morte de alguém que eu tenha amado no passado (falo aqui exclusivamente do amor romântico), mas tenho certeza de que não seria uma notícia nada prazerosa, muito pelo contrário, por mais que o amor em si estivesse morto e enterrado (com o perdão do trocadilho).

Melhor se fizéssemos como num outro filme, "O vingador do futuro", onde implantavam-se memórias de viagens, fazendo-se a pessoa acreditar que havia viajado para tal e tal lugar, por ter em sua mente lembranças claras e indistinguíveis daquelas produzidas por experiências sensoriais reais. Se eu lembro que fui, então eu fui.

Por que não apagamos, portanto, as lembranças ruins e mantemos as boas? Por que não lembrar dos beijos gostosos, do toque mágico, do olhar único, do sexo maravilhoso, do prazer da companhia, das afinidades, das conversas interessantes, dos motivos que fizeram nascer a paixão e o amor por aquela pessoa?

Cultivar as boas lembranças ou as ruins é uma opção nossa. E, como num cultivo agrícola, é preciso o tempo. O tempo: a grande máquina manipuladora da memória. O tempo nos faz, naturalmente, cultivar o que foi bom e matar o que foi ruim.

Depois de afastados de uma cidade na qual moramos há anos, tendemos a achar que o trânsito nem era tão ruim, que o lugar nem era tão violento, que o clima nem era tão insuportável.

Passada uma época, tendemos a achar que tudo antes era maravilhoso, "bons tempos aqueles ..." dito com um sorriso quase imperceptível e os olhos brilhando focados no infinito. A década anterior era melhor, o século que não vivi era certamente melhor, o que me remete a mais um filme, extraordinário: "Meia-noite em Paris".

Quando crianças, queríamos ser adultos. Hoje, lamentamos não poder voltar no tempo e voltar a ser criança. A infância, guardada na memória e embelezada pelo tempo, nos soa tão linda e perfeita!

Tudo isso não seria apenas uma bela peça pregada pelo tempo e pela nossa memória?

Voltando ao "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", há uma cena em especial da qual gostaria de falar: o herói da história chega ao local de trabalho da ex-namorada. Esta já havia feito o tratamento que apagara por completo qualquer lembrança sobre nosso herói. Ela o olha, indiferente, e pergunta o que ele deseja, como se nunca o tivesse visto antes. Ele agora era um desconhecido. Nosso herói, por sua vez, olha atônito sua ex-amada, dá meia volta, e vai, ele mesmo, não restando outra saída, "curar-se" pelo mesmo tratamento.

O filme é de ficção, é claro. Não sei se um dia a medicina terá esse poder que nem o tempo tem de apagar por completo nossas lembranças, mas se um dia tiver, não o invocaria. Permitam-me estar em paz com meus amores passados, permitam-me lembrar das coisas boas que vivi, das pessoas que amei, permitam-me curtir minha própria história. Fui eu quem a construí, às vezes sozinho, às vezes acompanhado. E essas lembranças, eu as quero. Quero que me acompanhem... até a morte.




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Fagulha no palheiro

 
Basta uma mensagem,
uma notícia.
Na palha seca
do celeiro
do Cerrado, 
vira centelha.
Uma centena
de dias, de anos,
nessa secura,
não servirá
a impedir a fagulha
de queimar
todo o palheiro
e deixar só a agulha.

(poema íntimo)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Edição especial de aniversário.


Hoje acordei quase esquecendo do meu aniversário.
Queria dar-me, eu mesmo, os parabéns.
Desejar-me, eu mesmo, felicidades.
Dar-me um aperto de mãos com minhas próprias mãos.
Dar-me, eu mesmo, tapinhas nas costas.
Afagar-me, com os meus dedos, os cabelos.
Olhar-me nos meus próprios olhos com um olhar amigo.
Sorrir-me com meus próprios dentes.
Desejar-me, eu mesmo, votos de sucesso.
Abraçar-me, eu mesmo, calorosamente.
Dar-me, de mim para mim mesmo, apenas uma lembrancinha, repare não!
Dizer-me, eu mesmo, cinicamente, puxa! você emagreceu!
Telefonar-me, de longe, proclamando saudades de mim mesmo.
Postar fotinhas antigas de mim abraçado comigo, dos tempos em que andávamos juntos, unha e carne.
Relembrar das piadas que ouvi de mim mesmo, do sorriso que dei a mim mesmo um dia, dos momentos inesquecíveis que tive ao meu lado e das barras que passei e eu não me abandonei.
...
Mas na minha casa não há espelho.
Não me vejo cara a cara para dar os parabéns, e nem enxergo meus dentes quando sorrio.
Minhas mãos só trocam apertos de forma desconjuntada.
Não alcanço meus ombros com minhas mãos,
Não alcanço, com meus tapas, as minhas costas.
Se levo as mãos à cabeça, não é para afagos.
Porque preciso do outro, vejam só!
Para tudo isso e muito mais.
Para me refletir no outro e nele aprender.
Para com ele cair, com ele levantar e com ele seguir.
Para a ele dar e dele receber parabéns, amor, dor, seja o que for...



sábado, 5 de outubro de 2013

Distância invertida



Há uma forma especial de saudade
quando se está perto e longe num mesmo instante.
Saudade que passa em frente a uma certa janela,
e torce o pescoço ao ver um certo carro.
Apura os ouvidos para ouvir falar de alguém pelos cantos.
E se não se ouve num canto,
vai-se a outro onde se ouça.
Se um filme, uma canção, um livro, 
um lugar, um cheiro, uma cor,
nos faz lembrar,
espreita-se sem se convidar,
e se imagina o que não se quer nem sonhar.

Há uma forma especial de mudez
quando se quer mas não de pode falar.
Grita-se sem o grito bradar.
E quando brada, não se ouve ecoar.
Escreve-se o que nunca é lido.
Aquelas cartas alimentando a fogueira ou em pedaços.
Por favor, leia antes de queimar...
ou rasgar.

Há uma forma especial de cegueira
quando a lua cheia não clareia.
Ainda que se veja, não se quer enxergar.
Você crê e não quer duvidar.
Lê sem nada assimilar.
Avança, quando é melhor recuar,
e não se aprende que é melhor nem tentar.
Não siga em frente! Melhor parar!

Há uma forma especial de ansiedade
quando a manhã seguinte não quer raiar.
Os olhos abrem e não se quer levantar.
O sangue corre sem querer estancar.
A chaga não fecha,
tudo é só pressa,
Resta só dúvida,
e angústia.

Há uma forma especial de solidão
quando se está perto e longe no mesmo instante.
Quando àquela janela há mais de uma sombra.
Quando naquele carro há uma carona.
Quando se ouve falar de alguém com mais alguém pelos cantos.
Quando certas coisas nos fazem lamentar.
Quando se espreita para constatar.
Quando se percebe que não cabe sonhar.


terça-feira, 9 de julho de 2013

Jack Kerouac - On The Road


Minha relação com a estrada sempre foi de paixão. Como todo menino, colecionava meus carrinhos de ferro. Ainda adolescente, partia em road trips de fim de semana com a prancha no teto do velho Passat, o carro cheio de amigos e daquela insensata alegria juvenil. Mais velho, troco as quatro rodas por duas e entro num motoclube. De moto, a estrada fica mais próxima, sente-se o asfalto correndo por baixo e o vento por cima. À frente, as linhas tracejadas hipnotizantes.
Tantas histórias foram contadas sobre a estrada que surgiu um novo gênero no cinema: o road movie. Pois bem, On The Road seria um road book? Era o que eu achava, mas há muito mais por trás das linhas do livro de Kerouac do que apenas as linhas tracejadas da estrada. A estrada de Kerouac é mais que a estrada do asfalto: é a estrada da vida. Nas entrelinhas da estrada de Kerouac vejo um debate profundo sobre a juventude, o conflito de gerações, o questionamento do que é ou não realmente importante, a adoração à música e às artes, a crítica ao vazio cultural, a abordagem de temas como sexualidade, solidariedade, amor, amizade, drogas, a relação entre pais e filhos, os traumas de infância, a busca pelo pai ausente, a felicidade real e a relação do ser humano com o dinheiro. Tudo isso não cabe entre as linhas de uma estrada, expande-se para além em todas as direções e acima, abaixo e para dentro de nós mesmos.
A profundidade do livro me impressionou. O tema da estrada é um disfarce para tudo isso e ao mesmo tempo uma metáfora brilhante. A estrada da vida é mesmo uma estrada, uma estrada vicinal e esburacada, com muitas curvas, desvios e retornos, e poucas retas. E a estrada só termina com a morte. “Ao infinito e além...”, ainda que em círculos! Esse é o movimento que se vê em “On The Road”.
O livro foi escrito em um parágrafo único com cerca de 125 mil palavras, num rolo de papel de 36 metros. A estrada de Kerouac estava não apenas no conteúdo, mas também na forma do próprio manuscrito. A propósito, Kerouac relutou em modificar a forma original do livro e apenas devido à enorme pressão do editor fez as modificações que tornariam o livro mais “digerível”.
Como nos mostrou a história da literatura, os escritores que ousaram na forma, e Kerouac não foi exceção, só tiveram suas obras reconhecidas e plenamente aceitas décadas depois. O estilo de grandes parágrafos e orações, sem quebras para diálogos, foi mais tarde copiado por autores como José Saramago (que foi além, suprimindo até mesmo as aspas).
On The Road não apenas agrada pelo conteúdo, mas também inova no formato, e tudo ali parece estar relacionado à idéia de velocidade, necessária à perfeita assimilação do que Kerouac queria dizer com a metáfora vida-estrada.
A história começa quando Jack e Neal se conhecem, logo após a morte do pai de Jack. Neal procura Jack, a princípio, numa tentativa de se tornar um escritor (como todo grande livro, On The Road é repleto de referências à literatura), mas Kerouac já induz a uma interpretação mais complexa dessa amizade: Jack diz a Neal: “Porra cara sei muito bem que você não me procurou porque tá a fim de virar escritor...” Neal passa a vida a procurar o pai ausente. A amizade dos dois apresenta esse elo de ligação importante, explorado ao longo de toda a narrativa. A ligação mental entre Jack e Neal é reforçada através de vários recursos do autor, como a repetição vista na frase final do livro (falo disso mais adiante). Jack é obcecado por Neal, e essa obsessão é recíproca. A história não é sobre Neal ou sobre Jack; é a história dos dois e da amizade entre eles, amizade essa que se manifesta sobre o asfalto, sobre quatro rodas.
Kerouac vê a estrada como um rumo à frente, uma direção inevitável e irretornável, onde tudo está à frente e nada resta atrás. Mas, se por um lado Kerouac aponta nossos narizes sempre para frente em passagens como no momento em que chega a Hollywood: “Nada atrás de mim, tudo à minha frente, como sempre acontece na estrada”; por outro, volta e meia insere obstáculo intransponíveis. O oceano é um deles e obriga ao fim e retorno do viajante. Kerouac planeja zarpar num navio, mas essa viagem nunca acontece. O bate-e-volta nas costas leste e oeste lembra uma versão motorizada de Forrest Gump. “Era o fim do continente, nada mais de terra.” A necessidade de retornar ou de desviar da rota é um elemento recorrente na história. A primeira viagem de Jack é planejada cuidadosamente sobre uma reta: a Rota 6, que nasce no Nordeste dos EUA e desce em diagonal até a Califórnia. Jack perde o mapa, o rumo e a esperança de uma execução conforme planejado logo no início da empreitada. Outra viagem, dessa vez ao México, começa dessa forma: “Ali estávamos nós a caminho das desconhecidas terras do sul e a apenas cinco quilômetros da nossa cidade natal, a velha e pobre cidade da nossa infância, quando um estranho e exótico inseto febril levantou-se de misteriosas corrupções para inocular o temor em nossos corações.” Jack refere-se a um inseto que pica o braço de Frank, um dos companheiros de viagem. Aqui mais um simbolismo que talvez represente a mensagem maior do livro: a vida é feita de ações e reações às circunstâncias e quase nunca seguimos pela trilha que marcamos previamente no mapa de nossas vidas. Ou nem sequer sabemos de antemão aonde queremos ir. Ao passarem por Chicago, Neal exclama, eufórico, “Uau! Jack temos que ir e não parar de ir até chegarmos lá.” Jack pergunta “Aonde vamos homem?”, e Neal responde “Não sei mas temos que ir.”
Outra recorrência é a casa de Jack (a casa de sua mãe, em Nova York), seu porto seguro. Em cada viagem, o carro utilizado era parcial ou totalmente destruído, e ao fim de cada viagem sempre se voltava ao ponto de origem sem se saber ao certo o que foi ganho ou por que se fez a viagem. As peças e parachoques que caiam pelo meio do caminho eram os pedaços do próprio Jack: “Onde é que estava a vida? Eu tinha minha casa para ir, meu lugar para descansar a cabeça e calcular as perdas que havia sofrido e calcular o ganho que sabia estar também em algum lugar.”
E Jack queria mesmo parar em algum lugar: “Quero me casar”, ele diz a Neal e Louanne, “e assim poderei descansar meu espírito ao lado de uma garota até que nós dois fiquemos velhos. As coisas não podem continuar assim indefinidamente... todo esse frenesi e essa agitação toda. Temos que chegar a algum lugar, encontrar alguma coisa.” Aliás, a vida familiar é enaltecida por Kerouac em outras passagens, como, por exemplo, quando diz que a paz desceria à terra quando os homens voltassem para casa e pedissem perdão às suas mulheres. Em outro momento, Kerouac eleva a família como objetivo maior da vida: “Toda minha vida arruinada girou diante de meus olhos fatigados, e percebi que não importa o que você faça está fadado a ser uma perda de tempo no fim das contas e você pode muito bem ficar doido. Tudo o que eu queria era afogar minha alma na alma de minha mulher e alcançá-la por meio do emaranhado de mantos que é a carne no leito.” A busca pelo amor aparece também no momento em que, parado numa estação rodoviária, Jack vê passar uma mexicana linda: “Uma dor apunhalou meu coração, como acontecia sempre que via uma garota que eu amava indo na direção oposta nesse nosso mundo grande demais.”
Ao falar de buscas, de amor e de amizade, Kerouac critica os valores da sociedade americana da década de 1940. Vemos Kerouac ironizar a intelectualidade. Também o vemos falar da facilidade da nova geração em fazer novas amizades, obviamente como contraponto à visão hermética e alterofóbica da geração anterior: Jack está “preparado para qualquer espécie de amizade humana” e, de fato, se relaciona com bêbados, prostitutas e vagabundos com a mesma naturalidade com que o faz com intelectuais e famílias “tradicionais”. O conflito entre vagabundos e “cidadãos normais” é colocado com humor. Big Slim Hubbard (segundo Kerouac, um “vagabundo por opção”) é introduzido na história dessa maneira: “quando criança [Big Slim Hubbard] tinha visto um vagabundo se aproximar e pedir um pedaço de torta à sua mãe, e ela lhe deu, e quando o vagabundo sumiu na estrada o garotinho perguntou, “Mãe quem era esse homem?” “Ora é um vagabundo.” “Mãe, quero ser vagabundo um dia.” “Cale a boca, isso não é coisa para os Hubbards.”
A vida segundo Kerouac é uma vida sem mapas, sem bússolas e sem navegadores GPS. É uma vida sem rumo. Não se sabe direito o que se busca, ou se busca o amor mas não se sabe onde ele está e qual a sua forma. E estamos todos conectados. Não somos indivíduos sozinhos no mundo, ainda que sejamos solitários. Estamos conectados à família, aos amigos, ao passado, ao pai ausente, aos bêbados desconhecidos com os quais esbarramos nas sarjetas. Neal representa essa conexão de Jack com o mundo, e esse é o elemento fundamental do livro, sua linha narrativa essencial. O livro começa falando de Neal Cassady: “Encontrei Neal pela primeira vez não muito depois que meu pai morreu...”. E termina no triste último encontro entre os dois amigos-irmãos, encontro no qual há o desencontro espiritual, o rompimento fatal que reinsere Jack em sua própria vida individual. Jack finalmente se liberta de Neal, mas seu pensamento não abandona jamais o amigo, cuja imagem deverá martelar em sua mente para sempre, ressonância simbolizada pela repetição da última frase do livro: “[...] eu penso em Neal Cassady, eu penso até no Velho Neal Cassady o pai que jamais encontramos, eu penso em Neal Cassady, eu penso em Neal Cassady.”
Tal como Jack e Neal, indo e voltando, batendo e rebatendo, esse livro é para ser lido e relido, e ele pulsará na mente do leitor para sempre. Desde que o li, eu penso em Neal Cassady, eu penso em Neal Cassady...

terça-feira, 30 de abril de 2013

Meu romance com os romances

Há quem goste de contos. Há quem goste de crônicas. Outros amam a poesia. Mas há quem prefira, como eu, romances.
Claro que me divertem as curruíras nanicas do Dalton Trevisan, os contículos pulguentos do Charles Bukowski e a cadeira de balanço do Carlos Drummond de Andrade. Também contos maiores, clássicos, do Anton Tchekhov, ou modernos, da Isabel Allende. Há contos enormes, mas que se leem numa só sentada, ou deitada. Que se lê o prefácio em Curitiba e o posfácio em Brasília, em que os personagens se conhecem em São Paulo e ao pousarem no Rio já foram felizes para sempre.
Como nos relacionamentos, há os rápidos e intensos, cujo prazer chega num pé e sai no outro, e há os lentos, duradouros, sólidos, que vão conquistando devagar, dia após dia, página após página. Assim é a relação com o romance, estrutura maior e mais complexa, recheada de contos, às vezes também crônicas, e muitas vezes poesia, ainda que em prosa.
É preciso ler grandes romances para entender do que estou falando. Grandes em qualidade e em tamanho. Aqueles bem grossos, assustadores aos coraçõezinhos desacostumados, os clássicos, aqueles que já passaram pelo crivo da História. Mas é como ir à academia depois das férias. Só dói no primeiro dia. 
Você precisa se envolver com os personagens, criar uma relação com eles, sentir saudade deles, sofrer junto, vibrar com suas conquistas, chorar suas dores, planejar suas vinganças, reprovar seus erros, reconhecer seus méritos, rezar para que se salvem. É preciso torcer pelo casal que quer ficar junto, pelo pai quer resgatar a filha, pelo detetive que persegue o autor do crime, pelo rei que defende seu reino, pela mãe que defende seu filho, pelo louco que se acha são. É preciso morrer as mortes dos personagens, e morrer de curiosidade pelo desfecho da história. Deve-se entrar nas páginas, molhar-se na tinta, respirar o ar que tomava o quarto do escritor, sentir sua pena riscando nossa pele. 
Tudo isso exige tempo. Exige que o livro durma ao nosso lado, em nossa mesinha de cabeceira, nos acompanhe na mochila ou na bolsa a todo lugar, nos faça companhia nas filas do banco e do supermercado, ande conosco no ônibus e no metrô, viaje conosco na ponte aérea ou no voo intercontinental, tome sol conosco na praia ou na piscina, vá conosco ao banco da praça ou do parque, ou simplesmente sente conosco no sofá da sala.
Na rapidinha do conto, na frieza da crônica e na beleza curta de um poema, viaja-se, mas é pegar um táxi, ou ir a pé ali na esquina. Ou é ir longe, mas num foguete à velocidade da luz. Não é melhor, nem pior. Mas é sexo rápido, na escada, no carro. Tira-se a roupa e já se sente o orgasmo. 
No amor leitor-romance, o sexo é tântrico, dura dias, semanas, meses ou anos. É namoro firme, relacionamento sério na rede social, anel dourado no anelar direito, e depois no esquerdo. Talvez o romance tenha esse nome porque nos conquista, nos enamoramos dele, e com ele casamos até que a morte nos separe...


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Filhos e poemas


Amor e dor são ingredientes presentes nas receitas de filhos e poemas. Para facilitar, vamos escrever uma só. Faça um deles, ou faça os dois ao mesmo tempo, a seu critério.

Comece pelo amor. Será preciso aqui um trabalho a quatro mãos, ou dois corações. Como toda receita complexa, comum em pratos sofisticados, sem um ajudante, ou melhor, um co-autor, ou melhor, um amante, sujam-se panelas e acessórios e termina-se pedindo uma pizza pelo telefone.
Junte os dois amores num recipiente. Pode ser um parque, uma praia, um avião, um banco de praça, seu trabalho ou mesmo um site de relacionamentos. O importante é que um mestre-cuca enxergue o outro e mais ninguém, independente do tamanho da cozinha e da população em volta. Essa receita, um não faz sozinho, e mais de dois entorna o caldo.
Em seguida jogue as sementes. Podem ser de girassol, de alecrim ou de dó-ré-si-bemol. No caldo do amor, aquecido em fogo brando ou alto, dependendo da pressa e da fome, as sementes germinarão. Um corpinho começará a crescer. Versos e estrofes tomarão forma. Um olhinho aqui, uma palavra acolá. Uma rima emparelhada, outra cruzada. Orelhinhas emparelhadas, perninhas cruzadas. Não dá ainda para ver o sexo.
Mexa sem parar, para não desandar. Se parar não dá liga, vai solar. Também não pare de temperar. Se parar, vai azedar, ou salgar. A massa cresce, o corpo cresce, o amor em forma de ser, ou de poema, intumesce e aparece. Já dá para ver o sexo. Pode ser menino ou menina. Podem ser gêmeos no ventre ou mesmo na poesia. Tanto num como noutro, vale menino com menina, menino com menino ou menina com menina.
O feto e o rascunho viram gente e poema. Corpo completo, cabeça, tronco e membros, dísticos, quartetos e sextilhas. Já não cabe mais na panela, e nem no ventre, e nem na mente. E vem a dor. Prepare-se, este é o passo fundamental, o toque de mestre, o tempero final.
As contrações nas entranhas, no alto e no baixo ventre. Algo dentro de nós cresceu demais e tem de sair. A dor do parto, a dor que expulsa o filho do útero materno, a dor que jorra pela ponta dos dedos no sangue que transcreve o poema em letras escarlate. A poesia que toma forma, a semente que vira gente. Já não cabe em mim e nem em ti. É preciso dá-la à luz, levá-la à mesa, com choro e riso, velas e um bom vinho.
E olhamos aquela coisinha inacreditável que saiu de nós. É a cara do pai! Não, é a cara mãe! Tem traços dos dois! Cada linha, cada pausa, cada rima, cada acento, cada erro, cada acerto. Nos vemos ali. É nosso amor que tomou forma, de criança, de prosa ou de verso.
Sirva enquanto quente, beije, abrace, cheire, leia, releia, aproveite. Depois o filho cresce, o poema envelhece. Os traços mudam, as traças traçam. A tinta desbota. Mas sempre serão nossos filhos, nossa obra-prima, tanto a criança, para sempre criança, como o poema, para sempre poesia.
Amor e dor aparecem nas receitas de filhos e poemas. O amor inspira, concebe e gera. O amor cresce dentro de nós até não caber mais. A dor expulsa e pare. É um parto natural. Depois amamos aquele ser, aquele poema que se escreveu. E ele é a cara do pai e da mãe, digo, do amor do qual nasceu.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Eternidade efêmera

Ele acordou outro dia e olhou para o teto, a página em branco na qual costumava escrever seus mais repentinos pensamentos matinais. Percebeu que não queria mais o resto, só o certo.
Conhecera-a e reconhecera-a singular, diferente, única, também farta de começos e fins, e que buscava, enfim, o transcendental, aquilo que não nascia do físico e dele não herdava seus castelos de areia..
Aquele homem percebia que já se havia satisfeito em tudo. Sua vontade dali em diante, atendendo a sua própria e sincera convicção volitiva, encerrava-se na vida ao lado daquela e de mais nenhuma. Sua libido não mais respondia aos estímulos fugazes de traseiros rebolativos, pernas expostas, olhares vulgares ou esta ou outra artimanha feminina.
Seu único sexo longe da amada era o solitário e em sua homenagem, na lembrança de sua imagem, do cheiro, do decote generoso, da maciez da pele da parte interna das coxas, das mãos leves e carinhosas, dos lábios entreabertos num convite, do olhar hipnotizante e da Yoni perfeita..
Ao encontrá-la, reafirmava seu sentimento pela presença. Ao despedir-se, convencia-se pela ausência. Assim, o prazer do encontro e a dor da distância eram sentimentos opostos que em soma e subtração resultavam no convencimento do amor que nascia para uma vida eterna.
O medo de que seu sentimento fosse filho único, sem gêmeo no ventre de sua amada, assim como dois vulcões dificilmente entram em erupção ao mesmo tempo, exigia-lhe provas de amor todo dia, até na madrugada exausta..
Certa vez, teve a certeza de ter-se enganado quanto ao amor, ou acertado quanto ao seu medo, ao encontrar no diário de sua diva, dirigidas a outrem, as palavras que tanto sonhava em ouvir. Cartas que ela escreveu, mas não me escreveu.
Razão e sentimento imediatamente em postos na batalha, como crianças empunhando espadas de madeira. Não se golpeavam mutuamente, mas sim a sua cabeça, afastando-lhe o sono e o sossego.
Como Otelo, ressonavam-lhe na mente intrigas e suspeitas, não de traições, decerto, mas de que sua musa não era muda por si, mas abstinha-se de falar apenas a ele. Ela tinha em seu intimo os sonhos que ele lhe cobrava, mas neles ele nunca aparecia.
Inobstante a convicção de que o amor só é explicável por aquilo que não é descritível, associava a esse amor, no afã de justificá-lo, infinitos atributos, do caráter aos lindos olhos, do talento aos lábios solícitos, entreabertos, do espírito ao corpo.
Mas quando o amor se rende à razão, melhor seria acordar dessa eternidade efêmera. Coração não pensa e cabeça não sabe amar. Se pensa, não ama, se ama, não pensa. Se ama, não esquece, se ama, não acorda. Não sei brincar de nunca mais descontar no corpo o tesão que se sente pela alma.